A regeneração urbana assistida no Bairro do Recife ao longo das últimas décadas possibilitou a atração e o surgimento de diversos espaços culturais, de natureza pública e privada. O Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, também conhecido como MuAfro, é um desses equipamentos que vêm se consolidando nos últimos três anos.
Instalado na Rua Mariz e Barros, nº 328, o museu funciona de quarta a domingo, das 13h às 17h. Os ingressos custam R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 10 + 1kg de alimento (social), com entrada gratuita às quartas-feiras.

O acervo reúne mais de 70 obras que difundem a memória e a identidade africana e afro-brasileira no centro histórico da capital pernambucana. Predominam máscaras e esculturas.
Cerca de 44 dessas peças são provenientes de diferentes regiões do continente africano, incluindo países como Guiné-Bissau, Senegal, Congo e Moçambique.

O conjunto também incorpora obras oriundas da Ásia, de localidades como Indonésia, Bali e Índia. Esse recorte integra a exposição permanente “Entre Continentes: Olhares Sobre Arte e Africanidades”.
Além dela, o museu abriga outra mostra permanente composta por esculturas do artista brasileiro Otávio Bahia, intitulada “Um homem com calo nas mãos não precisa de identidade”, inaugurada em 2022.
Quem foi Rolando Toro?

As obras que compõem o acervo pertenciam ao chileno Rolando Toro (1924-2010), antropólogo, psicólogo e criador do Sistema Biodanza. A coleção é resultado de suas viagens por países africanos e pelas cidades de Como e Milão, na Itália, a partir da década de 1990.
Foi a partir da prática da Biodanza — que propõe vivências por meio da música, do canto e do movimento — que o pensador estabeleceu uma relação próxima com o Recife ao longo da vida.
“Ele sempre vinha e frequentava uma ONG chamada Instituto Vida. A partir dessa relação com a cidade, pensou em criar um museu, embora ainda não soubesse exatamente onde”, explica Auríbio Farias, um dos curadores do espaço, ao Jornal Digital.
O prédio

A Escola de Biodanza do Recife, dirigida por Lúcia Helena Ramos — que atualmente também responde pela direção do MuAfro — viabilizou a compra do imóvel de número 328 da Rua Mariz e Barros, um edifício de três pavimentos, por meio de um parceiro.
“O Bairro do Recife foi pensado como um local adequado por sua forte presença afro-brasileira. Historicamente, a região foi marcada por práticas de compra e venda de pessoas escravizadas. Ter ali um espaço que amplifica a voz do povo negro dialoga com esse passado e com a presença crescente de equipamentos culturais”, afirma Auríbio Farias.
Levantamento realizado pelo Jornal Digital em hemerotecas digitais aponta menções ao imóvel desde 1931, período em que abrigava escritórios de empresas como Medeiros & Maria, revendedora de veículos da Chevrolet e da General Motors do Brasil, além de representantes da Metalúrgica Matarazzo.

As citações se repetem de forma expressiva ao longo das décadas seguintes, mas diminuem consideravelmente nos anos 1980. Nesse período, apenas oito registros aparecem no Diario de Pernambuco, refletindo o esvaziamento do Bairro do Recife após a saída de empresas e a retração das atividades portuárias.
A aquisição do imóvel para o MuAfro ocorreu em 2009. Contudo, Rolando Toro faleceu no ano seguinte e não chegou a ver o projeto concretizado como museu. Seu nome, contudo, permanece como referência no título da instituição.

“O prédio não estava em boas condições, mas foi possível reformar uma sala para atividades ligadas à Biodanza, além de oficinas de dança afro, como capoeira. Assim teve início o funcionamento, em 2011”, relata o curador.
A partir de 2014, parte do acervo de Toro começou a chegar ao Recife. Inicialmente, o espaço reunia 17 esculturas de Otávio Bahia (1943-2010). O museu passou a operar oficialmente em maio de 2022, no contexto da reabertura dos equipamentos culturais após a pandemia da Covid-19.
Exposição permanente

Um dos aspectos que diferenciam o MuAfro é seu caráter independente. O museu não conta com patrocinadores fixos, mantendo-se por meio da iniciativa de seus gestores e da aprovação em editais públicos, seja diretamente ou por meio de artistas que desenvolvem projetos no local.
A exposição permanente “Entre Continentes” foi inaugurada em maio de 2025, com apoio do Edital Funcultura Geral 2023/2024 e do PNAB 2024 (Museus e Memórias Sociais).
Composta por 44 peças, entre máscaras, esculturas e painéis, a mostra evidencia como esses objetos expressam ciclos da vida, conexões espirituais, rituais e dinâmicas identitárias de diferentes povos africanos.

Para a diretora do MuaAfro, Lúcia Helena Ramos, a atual exposição marca um momento de consolidação do espaço. “Nesses quase quatro anos de portas abertas, o museu se firmou como uma casa da cultura afro pernambucana. Recebemos artistas, pesquisadores e públicos diversos, fortalecendo simbolicamente a presença da cultura negra no coração do Recife Antigo”, afirma.
Atualmente, o museu dispõe das salas Rolando Toro (exposição permanente), Naná Vasconcelos (em homenagem ao percussionista e voltada a ensaios e oficinas); Inaldete Pinheiro (em referência à escritora e contadora de histórias); e Miró da Muribeca, dedicada ao poeta, onde será instalado um pequeno memorial.
Confira a programação completa de janeiro no MuAfro Recife:
Dia 10/01 | Sábado no MuAfro: literatura, cinema, fotografia e músic
13h Abertura do Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro
13h30 Visita guiada especial a exposição “Um homem com calo nas mãos não precisa de identidade”, de Otávio Bahia.
14h Visita guiada especial a exposição “Entre Continentes: Olhares sobre Arte e Africanidades”.
15h Abertura da exposição fotográfica “É Tempo de Pipa”, de Laine Ferreira
16h Momento Literário com poetas Bicicastelo e Patinha
17h Hora da Poesia com artistas e microfone aberto
18h Encontros do Cinema Pernambucano com Carlos Kamara, Soninho e Rute Silva
19h30 Doug
20h30 Pocket show de Soninho com participação de 6TA e Farias
21h DJ BrendB
Dia 14/01 | Quartas no MuAfro: IYÁ convida HORUS, LARISSA CALADO e KEYTHE TAVARES com poesia, música e bate-papo
18h45 Iyadirê Zidanes apresenta “Chamada com Verso” na estátua de Miró Muribeca
19h Pocket show de Horus
19h30 Bate-papo com Keythe Tavares, Larissa Calado e o público
20h Nathália Queiroz apresenta “Lero com as emoções” e abre a roda de poesia
21h30 Audição do álbum “Sou, Estou”, de Nailson Vieira
Dia 21/01 | Quartas no MuAfro: IYÁ convida JESSICALEN, com poesia, música e bate-papo
18h45 Iyadirê Zidanes apresenta “Chamada com Verso” na estátua de Miró Muribeca
19h Intervenção poética com Brenda Lígia
19h30 Bate-papo com Brenda Lígia e Jessicalen
20h Jessicalen abre a roda de poesia21h30 Audição do álbum “Pelos Olhos do Mar”, de Lia de Itamaracá e Daúde
Dia 28/01 | Quartas no MuAfro: IYÁ convida Roda de Poesia Digaí, com poesia, música e bate-papo
18h45 Iyadirê Zidanes apresenta “Chamada com Verso” na estátua de Miró Muribeca
19h Intervenção poética com Luna Vitrolira
19h30 Bate-papo com a Roda Digaí
20h Microfone aberto
21h30 Audição do álbum “Aquenda – O Amor Às Vezes É Isso”, de Luna Vitrolira

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