Há cerca de 40 anos, o Recife voltou a olhar para o Bairro do Recife, a ilha onde a cidade nasceu e que, à época, encontrava-se profundamente degradada. Diante daquele cenário, o poder público passou a buscar caminhos para transformar a região, retomando uma de suas vocações históricas: a vida noturna.

O Bairro do Recife viveu seu auge boêmio entre as décadas de 1930 e 1940, impulsionado pela intensa movimentação do Porto do Recife às vésperas e durante a Segunda Guerra Mundial. A chegada de navios norte-americanos estimulou a circulação do dólar e dinamizou o cotidiano da região.

Nota do Diario de Pernambuco sobre abertura do Chantecler, em 20 de junho 1939 (Crédito: Biblioteca Nacional)

Foi nesse período que surgiram espaços emblemáticos, como o Bar Gambrinus, em funcionamento entre 1930 e 2000, na Avenida Marquês de Olinda; o As Galerias, na Praça do Arsenal, associado à história do dirigível Zeppelin; além do Valdemar Drinks, do Scotch Bar e do Chantecler — que nasceu como cassino na Rua do Bom Jesus, circulou por diferentes endereços e se fixou no edifício que hoje leva seu nome, também na Marquês de Olinda.

A decadência dessa efervescência noturna começou na segunda metade dos anos 1960, acompanhando a retração de outras atividades econômicas na ilha. Alguns dos bares citados ainda resistiram, mas o bairro entrou em um longo período de esvaziamento.

Bairro do Recife, em 1992, antes das ações de reabilitação (Crédito: Ubiratan Rodrigues via Arquivo Público João Emerenciano)

“Até o começo dos anos 1990, o Bairro do Recife viveu em completo abandono. À noite, chegava a lembrar uma cidade fantasma: esquecida, inerte, oca”, relembrou o escritor e memorialista Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro “Recife e Seus Bairros”

Segundo ele, as visitas noturnas ao Bar São Francisco — um dos poucos ainda em funcionamento — incluíam mesas improvisadas na calçada para observar os “prédios antigos, desertos e desamparados, que o tempo teimava em esquecer”.

“Nem pareciam aqueles edifícios construídos no início do século, durante a reforma urbana, modernos, limpos, alegres, que em seu conjunto lembravam Paris na belle époque”, escreveu Cavalcanti, ao comparar o passado vibrante dos anos 1940 e 1950 com a atmosfera de esquecimento que se impôs nas décadas seguintes.

Um bairro 24 horas para o Recife

Bairro do Recife, em 1992, antes das ações de reabilitação (Crédito: José Gonçalves via Arquivo Público João Emerenciano)

A primeira tentativa de reabilitação ocorreu durante a gestão municipal de Jarbas Vasconcelos (1986–1989), inspirada em experiências italianas e construída a partir da escuta dos moradores da área. A ideia não avançou, à época, devido à dificuldade de mobilizar os agentes econômicos da cidade, mas deixou um legado importante: a criação de um primeiro Plano de Reabilitação do Bairro do Recife.

Já na gestão seguinte, de Gilberto Marques Paulo (1990–1992), que assumiu a prefeitura após Joaquim Francisco se afastar para disputar o Governo do Estado, surgiu pela primeira vez a ideia de transformar a ilha em um “Bairro 24 Horas”.

Em 31 de maio de 1992, o Jornal do Commercio publicou a reportagem “Recife terá o seu Bairro 24 Horas — Prefeitura vai mais além no seu projeto de revitalização”. O texto, assinado por Cláudio Castanha, detalhava a proposta de converter o antigo cais do porto em um polo de animação cultural, lazer e comércio, ampliando as atividades já existentes nos cerca de 40 quarteirões do bairro histórico.

Bairro do Recife, em 1992, antes das ações de reabilitação (Crédito: Ubiratan Rodrigues via Arquivo Público João Emerenciano)

O projeto dialogava com referências internacionais, como Docklands, em Londres, e Puerto Madero, em Buenos Aires. Para viabilizá-lo, a Prefeitura iniciou conversas com a iniciativa privada e estabeleceu incentivos fiscais, com isenções parciais ou totais de IPTU e redução do ISS para novos empreendimentos. “Contamos com o apoio da iniciativa privada para esse novo direcionamento que toma o Bairro do Recife”, afirmou o então prefeito.

A proposta nasceu dentro da Empresa de Urbanização do Recife (URB), a partir de técnicos preocupados em encontrar alternativas de crescimento para o centro da cidade, conciliando desenvolvimento econômico e preservação do conjunto arquitetônico existente, conforme explicou Mauro Domingues, então diretor de Planejamento Urbano.

Rua do Bom Jesus, um exemplo de sucesso

Rua do Bom Jesus (Crédito: Bruno Lima MTUR)

Em 1993, Jarbas Vasconcelos retornou à prefeitura e retomou o processo de revitalização com maior articulação junto a investidores privados. Diante da desconfiança inicial do mercado, a própria Prefeitura desapropriou e restaurou os três primeiros imóveis da Rua do Bom Jesus, dando o impulso inicial ao projeto.

Nesse contexto, a Fundação Roberto Marinho entrou em cena com o projeto Cores da Cidade, em parceria com a Tintas Ypiranga, responsável pela pintura das fachadas da rua — iniciativa semelhante à anunciada em 2025 pela gestão de João Campos, desta vez com a Tintas Coral.

A gestão municipal também atuou na restauração de edifícios estratégicos, como a Associação Comercial de Pernambuco e a antiga Bolsa de Valores, no entorno do Marco Zero. O passo mais decisivo, porém, foi a criação de um “escritório de negócios” para intermediar o diálogo entre investidores e proprietários de imóveis: o Escritório de Revitalização do Bairro do Recife.

Com o casario recuperado e a chegada de bares e restaurantes, a Rua do Bom Jesus consolidou-se, ao longo dos anos 1990, como polo de entretenimento e turismo, conhecido como Polo Bom Jesus. Shows e apresentações culturais passaram a ocupar palcos montados no fim da via.

Mapa do Plano de Reabilitação do Bairro do Recife separa a ilha em polos de interesse, com o Polo Rua do Bom Jesus está com a cor verde

“Pernambucanos e turistas passaram a frequentar a Rua do Bom Jesus em massa, a ponto de, nos finais de semana, ser difícil encontrar cadeiras nas calçadas”, recorda o produtor cultural Paulo Braz, no livro Meu Peito É Feito de Festa (2019).

Na mesma década, a Rua da Moeda também passou por um processo de ocupação, marcado pela abertura de bares de perfil alternativo e pela presença de um público mais jovem, impulsionado por iniciativas como o festival Rec-Beat e o bar Pina de Copacabana.

Segundo Paulo Braz, a descontinuidade do Escritório do Bairro do Recife após o fim da gestão Jarbas contribuiu para a instabilidade do Polo Bom Jesus. Era o órgão que garantia, por exemplo, a articulação entre poder público e iniciativa privada, além de ações de segurança. “Há também um processo cíclico, às vezes rápido, entre o nascimento e o desaparecimento de certos lugares ‘da moda’ no Recife”, observa o empresário, atualmente à frente do restaurante Frege, na Avenida Rio Branco.

Atualidade

Guia interativo de estabelecimentos do Bairro do Recife foi lançado pelo Porto Digital

Transformada em boulevard em 2017, a Avenida Rio Branco passou a concentrar novos empreendimentos, como o Armazém Rio Branco, a Bodega do Véio e o próprio Frege, além de quiosques. Outros espaços seguem surgindo nos arredores.

Já a Rua do Bom Jesus mantém movimento intenso nas noites de sexta e sábado, sobretudo nas imediações da Praça do Arsenal, com bares como o Venda do Bom Jesus, que aposta em música ao vivo, e o Bexiga, voltado a um público mais jovem.

Em 2024, o Porto Digital lançou um guia interativo reunindo estabelecimentos do bairro — entre bares, cafés, restaurantes, espaços culturais e estacionamentos. O levantamento identificou mais de 100 pontos de interesse, incluindo 42 restaurantes, 20 bares, 39 cafés e lanchonetes, além de cinema, teatros, museus, galerias de arte e áreas de estacionamento. O acesso é gratuito e está disponível online.

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