Quadro da Constituição da República Independente do Bairro do Recife (Crédito: PC Pereira/Porto Digital)

As tentativas de revitalização do Bairro do Recife nos anos 1990 resultaram até em uma legislação para a ilha de 270 hectares. A Primeira Constituição da República Independente do Bairro do Recife foi, na verdade, uma brincadeira bem intencionada de boêmios e foliões com respaldo do então deputado federal Gustavo Krause.

A Constituição foi “promulgada” em 10 de dezembro de 1993, com uma festa no antigo Espaço Bandepe (Avenida Rio Branco, 23), com shows da banda Santa Boêmia e André Rio, e uma encenação de um texto do tropicalista pernambucano Jommard Muniz de Britto. Foi realizado ainda um concurso para escolher o Hino do Bairro do Recife Antigo, aberto a todos os compositores.

O documento dessa Constituição ficava afixado em frente ao Gambrinus, bar inaugurado em 1930, tendo sido o mais antigo estabelecimento do gênero no Bairro do Recife até o ano de 2000, quando precisou ser fechado para as reformas do Chanteclair — o bar ficava localizado no térreo desse prédio.

Diversos quadros alusivos à constituição também foram distribuídos por bares da época. Um deles ainda pode ser encontrado no Scotch Bar 28, na Avenida Alfredo Lisboa, um remanescente de um conjunto de estabelecimentos que já não existem mais.

Carlos Henrique, do Scotch Bar 28, segura quadro da Constituição da República Independente do Bairro do Recife (Crédito: PC Pereira/Porto Digital)

“Frevocracia

Com a iniciativa, Krause, que também foi prefeito do Recife de 1979 a 1982, convocava boêmios, músicos, poetas, artistas, executivos, estudantes e demais interessados em instaurar “a primeira república sob forma de frevocracia”, em um “regime anarco-musical”, conforme definia o texto, escrito a próprio punho.

Pela Constituição, o Bairro do Recife teria como símbolo a garrafa e a radiola de ficha, ícones do bares locais, conhecidos por servirem uísque a preços convidativos. Sua bandeira seria “verde cana, amarelo cerveja e azul madrugada”.

Charge publicada no Jornal do Commércio, em dezembro de 1993, na ocasião do lançamento da Primeira Constituição da República Independente do Bairro do Recife (Crédito: Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano)

“Todos os boêmios são iguais perante a primeira dose e desiguais depois da décima”, dizia o texto. “Para a tranquilidade geral, todos os bêbados terão assistência médica e social gratuita, com direito a albergue e soro glicosado, fazendo jus a um seguro etílico”.

Revitalização através da noite

À época, o Bairro do Recife já era a “menina dos olhos” do projeto de revitalização do Centro do Recife, tocado pela gestão municipal de Jarbas Vasconcelos. A Prefeitura já havia feito reformas estruturais na Praça do Marco Zero e na Praça do Arsenal da Marinha.

Apesar da decadência acentuada nos anos 1980, o bairro ainda assistia a resistência de bares como Scotch 28, Waldemar Marinheiro, Royal, Gambrinus e As Galerias, onde até hoje é servido o leite maltado mais famoso da cidade.

Gambrinus, o icônico bar que foi o mais antigo do Bairro do Recife

No começo dos anos 1990, já assistia a um resgate de movimentação cultural capitaneada pelos jovens que viriam fundar o movimento manguebeat, que ocupavam espaços como Franc’s Drinks (que também se chamou Adília’s Place) e o Bar do Grego.

Em 1992, o prefeito Gilberto Marques Paulo (1990–1992) chegou a sugerir a ideia de transformar a ilha em um “Bairro 24 Horas”. A ideia era converter o antigo cais do porto em um polo de animação cultural, lazer e comércio, ampliando as atividades já existentes nos cerca de 40 quarteirões do bairro histórico.

Em 1993, Jarbas Vasconcelos retornou à prefeitura e retomou o processo de revitalização com maior articulação junto a investidores privados.

Foi quando a sua gestão conseguiu dar um impulso a essa vocação noturna com maior afinco através da restauração da Rua do Bom Jesus como polo de entretenimento e turismo, conhecido como Polo Bom Jesus.

Atualidade

A Rua do Bom Jesus mantém movimento nas noites de sexta e sábado, sobretudo nas imediações da Praça do Arsenal, com bares como o Venda do Bom Jesus, que aposta em música ao vivo, e o Bexiga, voltado a um público mais jovem.

A Avenida Rio Branco, transformada em Boulevard em 2017, passou a concentrar novos empreendimentos, como o Armazém Rio Branco, a Bodega do Véio e o Frege, além de alguns quiosques. Outros espaços seguem surgindo nos arredores.

O Porto Digital lançou um guia interativo reunindo estabelecimentos do bairro — entre bares, cafés, restaurantes, espaços culturais e estacionamentos. O levantamento identificou mais de 100 pontos de interesse, incluindo 42 restaurantes, 20 bares, 39 cafés e lanchonetes, além de cinema, teatros, museus, galerias de arte e áreas de estacionamento. O acesso é gratuito e está disponível online.

Leia a Constituição da República Independente do Bairro do Recife:

Nós, os boêmios, sob a proteção da noite, decretamos e promulgamos a Constituição da República Independente do Bairro do Recife:

  • Art 1º – A República Independente do Bairro do Recife será organizada sob a forma de frevocracia, regime anarco-musical, exercido por boêmios, músicos e poetas.
  • Art 2º – Ficam instituídos, como símbolos do Bairro do Recife, a garrafa e a radiola de ficha.
  • Art 3º – São cores da bandeira do Bairro do Recife o verde-cana, o amarelo-cerveja e o azul-madrugada.
  • Art 4º – Todos são iguais perante a primeira dose e desiguais depois da décima dose.
  • Art 5º – Todos os bêbados terão assistência médica e social gratuita, com direito a albergue e roso glicosado e farão jus a um seguro-etílico.
  • Art 6º – O Bairro do Recife é território de paz, das lutas amorosas e da felicidade compartilhada.
  • Art. 7º – No Bairro do Recife, situado ao lado de baixo do Equador, fica abolido o pecado.
  • Parágrafo Único – Todas as noites são de lua.
  • Art. 8º – No Bairro do Recife o sistema de preços é capitalista e o sistema de pagamentos das contas é socialista.
  • Art. 9º – Fica criado o Tabelionato de Notas para registrar conversas e promessas noturnas com fé de ofício.
  • Art. 10º – Fica criado o Patrimônio Histórico-Etílico com o objetivo de preservar todo o ecossistema liricoalcoólico do Bairro, tombados desde já os bares 28 e o de Waldemar Marinheiro.

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