Aveiro, cidade de Portugal que abriga o Cais do Porto, Hub de internacionalização de empresas do Porto Digital (Crédito: Freepik)

Por Marcela Valença e Luiz Maia*

Como têm evoluído as admissões e os desligamentos de profissionais técnicos em Tecnologia da Informação e Comunicação nos últimos anos? Quais competências parecem ganhar maior valorização quando observamos os salários de entrada no setor? E de que forma a transformação digital dos negócios tem ampliado a demanda por esses profissionais fora do próprio setor de tecnologia? Há ainda uma questão estrutural por trás dessas perguntas: a formação local de talentos acompanha, de fato, as tendências do mercado?

Interrogações como essas não interessam apenas a especialistas. Elas orientam decisões estratégicas de empreendedores, investidores e formuladores de políticas públicas em qualquer país que pretenda fortalecer seu ecossistema de inovação. Sem dados consistentes sobre mercado de trabalho, formação de talentos e dinâmica empresarial, decisões relevantes acabam sendo tomadas com base em percepções fragmentadas.

Essa preocupação com dados e evidências não é recente. Ela acompanha toda a trajetória do Porto Digital, que ao longo de 25 anos se consolidou como um dos principais distritos de inovação da América Latina. Seu modelo de desenvolvimento sempre se apoiou na cooperação entre empresas, universidades e governos — uma arquitetura institucional que articula a formação de talentos, políticas públicas e desenvolvimento empresarial.

Os efeitos dessa estratégia tornaram-se particularmente visíveis nos indicadores mais recentes do mercado de trabalho em tecnologia na cidade. Dados estruturados pelo Porto Digital indicam, por exemplo, que o número de empregos formais em TIC no Recife cresceu cerca de 16% entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Trata-se de um ritmo aproximadamente quatro vezes superior ao crescimento do emprego total da economia local no mesmo período.

Esse dado dialoga diretamente com as perguntas iniciais deste texto. Ele indica que a demanda por profissionais de tecnologia segue em expansão acelerada, impulsionada não apenas por empresas do próprio setor, mas também por organizações de áreas tradicionais que vêm intensificando seus processos de digitalização.

Curiosamente, outro indicador chama atenção: os salários médios de admissão para diferentes níveis profissionais no setor não cresceram muito acima da inflação no período. Em outras palavras, embora a demanda por profissionais siga forte, a expansão do mercado tem ocorrido de forma relativamente equilibrada, sem pressões salariais desproporcionais no curto prazo.

Por trás desses números está o amadurecimento de parcerias construídas ao longo de décadas entre universidades, empresas e governos. Iniciativas voltadas à formação e atração de talentos têm desempenhado papel central nesse processo.

Programas como o Embarque Digital, a Residência Tecnológica e o REC’n’Play (festival anual que reúne dezenas de milhares de pessoas no Bairro do Recife em torno da inovação, do empreendedorismo e da economia criativa) mostram como políticas públicas ágeis podem estimular ambientes favoráveis à inovação.

Cais do Porto

Agora, essa experiência acumulada começa também a atravessar o Atlântico. Com a criação do Cais do Porto, iniciativa do Porto Digital em Portugal, abre-se um novo capítulo de cooperação internacional voltado ao fortalecimento das conexões entre os ecossistemas de inovação do Brasil e de Portugal.

Inspirado no modelo que ajudou a transformar o Bairro do Recife em um vibrante polo tecnológico, o projeto busca estimular conexões entre startups, universidades, centros de pesquisa e investidores dos dois países. O objetivo é ampliar as oportunidades de negócios, facilitar o intercâmbio de talentos e estimular projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico.

Essa agenda encontra terreno fértil em Portugal. O país vem se consolidando como uma porta de entrada natural para empresas brasileiras no mercado europeu e como destino para profissionais de tecnologia que buscam internacionalizar suas trajetórias.

Para compreender melhor essa dinâmica emergente, o Cais do Porto, lançou recentemente o Censo Tech:  um instrumento vivo de mapeamento do ecossistema de profissionais e empresas brasileiras de tecnologia que atuam em território português.

Primeiros resultados

Os primeiros resultados ajudam a iluminar algumas tendências importantes.

A origem geográfica dos profissionais brasileiros em Portugal é bastante diversa, sem forte concentração em um único estado. Ainda assim, alguns pólos se destacam: 20% dos respondentes vieram de Pernambuco, 19% de São Paulo e 12% do Rio de Janeiro.

O destino dentro de Portugal também é relativamente distribuído. Cerca de 20% vivem em Lisboa, 16% no Porto e 7% em Aveiro, com o restante espalhado por diferentes regiões do país.

O levantamento revela ainda que 43% dos profissionais estão em Portugal entre três e cinco anos, enquanto aproximadamente um quarto já reside no país há mais de cinco anos: um indicativo de processos migratórios que começam a ganhar estabilidade.

Outro dado relevante é que 58% destes profissionais chegaram ao país já com emprego, o que sugere uma demanda concreta e estruturada por talento especializado. Não por acaso, 86% dos participantes do levantamento atuam diretamente em TIC, enquanto os 14% restantes são fundadores de empresas de tecnologia.

Aveiro fica localizada no Centro-Norte de Portugal (Crédito: Divulgação)

As funções desempenhadas por esses profissionais refletem a diversidade típica do setor: desenvolvimento de software, ciência de dados, controle de qualidade, entre outras especializações técnicas.

Do lado das empresas, o levantamento aponta um ecossistema ainda jovem, mas em crescimento. A maioria das organizações participantes atua em consultoria tecnológica ou healthtech, com mais de três quartos terços operando predominantemente no modelo B2B.

Em termos de porte, dois terços das empresas possuem até dez colaboradores, o que indica um ambiente ainda fortemente marcado por startups e pequenas empresas inovadoras. Há também sinais positivos em relação à diversidade: mais da metade das empresas participantes declara ter mulheres em posições de gestão.

Forte interconexão

Quando se observa a relação entre Brasil e Portugal nas operações dessas empresas, percebe-se um forte grau de interconexão: 50% delas já mantinham atividades no Brasil antes de se estabelecerem em Portugal, reforçando a ideia de que o movimento de internacionalização ocorre em duas direções.

Por fim, entre os desafios relatados pelas empresas para operar no país, a burocracia administrativa aparece como a principal dificuldade para abertura e consolidação de negócios.

Mais do que um conjunto de estatísticas, esses dados ajudam a responder (ainda que parcialmente) às perguntas que abriram este texto. Eles mostram que a mobilidade de talentos, a internacionalização de empresas e a crescente demanda por competências digitais são fenômenos interligados que atravessam fronteiras.

Entender essas dinâmicas exige olhar simultaneamente para diferentes territórios, ecossistemas e políticas públicas. É justamente esse o espírito desta série de textos.

Nos próximos artigos, continuaremos explorando dados, experiências e reflexões sobre inovação, tecnologia e formação de talentos, sempre buscando aproximar realidades e aprendizados entre o Brasil e Portugal.

A proposta não é oferecer receitas prontas nem ensinar caminhos únicos. O objetivo é outro: pensar em conjunto, conectar experiências e construir novas pontes entre ecossistemas que têm muito a aprender um com o outro.

*Marcela Valença é Country Operations Manager do Cais do Porto
*Luiz Maia é pesquisador do Porto Digital e professor da UFRPE

Esse texto é a primeira parte da série “Ponte de Dados”, elaborada pelos autores para o Jornal Digital

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