Antigo prostítulo localizado na Avenida Rio Branco reuniu artistas, jornalistas e músicos, serviu de berço para o Rec-Beat e marcou a ocupação cultural de um bairro ainda degradado nos anos 1980 e 1990

“O bairro do Recife Antigo tremeu no último sábado. Não foi nada parecido com uma briga de prostitutas nem uma invasão holandesa. No coração do baixo meretrício, guitarras distorcidas anunciavam mais uma etapa do projeto REC-BEAT, que, desde dezembro, movimenta a cena recifense no Franc’s Drinks. Entre copos de cerveja, os roqueiros esperavam ansiosos nas calçadas da Avenida Rio Branco pelas primeiras notas.”
Esse é o parágrafo que abre a reportagem Rock invade o Recife Antigo, assinada pelo jornalista Ricardo Novelino no Diario de Pernambuco, em 1994. O texto registra a efervescência de um dos principais points da geração mangue — que também atravessou gerações posteriores — no Bairro do Recife durante os anos 1990.
O Franc’s Drinks ficava na Avenida Rio Branco, nº 66, onde hoje funciona o Calidus Dancing Bar, estabelecimento que ainda preserva a vocação noturna do imóvel.

Em meados dos anos 1980, o espaço se chamava Adília’s Place, um prostíbulo que foi “adotado” pelos jovens alternativos da época para realizar festas. Entre eles estavam DJs como Dolores e músicos que mais tarde formariam bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.
A primeira festa de que se tem notícia chamava-se Sexta Sem Sexo, numa alusão ao uso de um prostíbulo para outra finalidade. A escolha refletia a escassez de espaços que tocassem as músicas que aquele grupo queria ouvir. Mais do que isso, evidenciava a dificuldade de alugar locais para festas em um Recife que vivia um período de estagnação econômica e cultural.

O Bairro do Recife, aliás, encontrava-se em avançado estado de degradação. O Adília’s era muito frequentado por marinheiros gregos, coreanos, russos e de outras nacionalidades que desembarcavam dos navios atracados no Porto do Recife.
Já nos primeiros anos da década de 1990, rebatizado como Franc’s Drinks, o espaço reunia, quase todas as sextas e sábados, designers, arquitetos, jornalistas, artistas plásticos, fotógrafos, produtores, escritores, cineastas e, sobretudo, músicos. “A coisa ficou de um jeito que oficializou-se a noite do Bairro do Recife, via Franc’s Drinks”, um texto de Adriana Dória Matos, do JC, em 1995.
Isso tudo ocorreu antes do poder público investir na revitalização de pontos como a Rua do Bom Jesus e o Marco Zero, visando uma maior movimentação noturna e turística no bairro.
Projeto Rec-Beat

O Rec-Beat, que hoje ocupa anualmente o Cais da Alfândega durante os quatro dias de Carnaval, nasceu dentro do Franc’s, em 1993.
“Era uma ruína. Havia também uma crise econômica. O Franc’s Drinks era um dos poucos espaços ativos. Tinha ainda o Bar do Grego e o Paço Alfândega, que também estava degradado, mas recebia o Mercado Pop”, relembra Antônio “Gutie” Gutierrez, criador do festival.
Passaram pelo palco bandas de rock, como Jorge Cabeleira e Paulo Francis Vai Pro Céu, além de grupos de rap, como Faces do Subúrbio, entre muitos outros.

Em 1995, Gutie conseguiu apoio do extinto Banorte para levar 12 bandas pernambucanas a São Paulo, em três ônibus. A caravana saiu, literalmente, do Franc’s. Os shows aconteceram no Aeroanta, famosa casa de shows da capital paulista da época, e ficaram conhecidos como uma espécie de “Rec-Beat Zero”.
A primeira edição oficial do festival passou a ser contabilizada em 1995, no Centro Cultural Luiz Freire, onde foram realizadas três edições. Já presença do festival no Bairro do Recife começou em 1999, na então esvaziada Rua da Moeda. O palco é montado no Cais da Alfândega desde 2004. Por isso, este ponto do bairro possui hoje um caranguejo gigante, em alusão ao movimento mangue.

Franc’s atravessou as décadas
Um incêndio, em 1995, quase decretou o fim do espaço que serviu de berço para diversas bandas alternativas. Ainda assim, o Francs continuou fazendo parte da trajetória de quem desejava criar novos espaços de festa na cidade.
Um bom exemplo foi a Non Stop, produzida por Eduardo Pereira ainda nos anos 1990. Aos 19 anos, ele realizou a primeira edição da festa no Francs, após distribuir flyers entre estudantes dos cursos de Comunicação.
O evento foi um sucesso e o incentivou a promover novas edições em diferentes casas da região, atravessando a década. A festa cresceu e passou a reunir diversas tribos: LGBTs, góticos, roqueiros e surfistas, marcando toda uma geração.

Nos anos 2000, o Franc’s recebeu festas de produtores que surgiram naquela década, como Golarrolê, Sem Loção e Neon Rocks. A procura era tão grande que o espaço passou por algumas reformulações para melhoria de estrutura, mas sempre preservou as boias de marinheiros nas paredes, numa referência aos frequentadores do passado.
O Franc’s deixou de existir com esse nome em 2013, quando foi notificado por apresentar irregularidades nos equipamentos de segurança e por não possuir alvará de funcionamento concedido pela Prefeitura do Recife.
Hoje, o prédio continua de pé. O que aconteceu entre aquelas paredes permanece como memória da cultura noturna recifense e da ressignificação de um espaço urbano degradado por uma geração movida pelo espírito do do it yourself, que fez muito com muito pouco.
O Franc’s marcou o elo entre a antiga boemia portuária e uma nova geração de recifenses que, cansada da caretice das casas noturnas da cidade, reinventou o Bairro do Recife como território de experimentação cultural.

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