Em auditório lotado, autor resgata memórias pessoais para discutir relações, tempo e a importância da atenção ao outro

Em meio às discussões sobre tecnologia, criatividade e futuro que marcam o Rolê REC’n’Play 2026, Fabrício Carpinejar levou ao palco uma provocação que começa fora das telas: como estamos cuidando das relações que mantemos com quem está ao nosso lado?
No painel “Inovação pelo Afeto: que ninguém seja invisível ao seu lado”, o escritor e jornalista apresentou uma ideia de inovação que não passa por algoritmos ou dispositivos, mas pela atenção ao outro e pela capacidade de romper a rotina que, muitas vezes, nos torna indiferentes a quem está próximo.
Consagrado como um dos principais nomes da literatura contemporânea, com mais de 53 livros publicados e mais de 20 prêmios literários, Carpinejar também ganhou projeção nas redes sociais ao compartilhar frases e poemas curtos escritos em guardanapos, com mensagens afetivas e intimistas. O lirismo do cotidiano, marca de sua produção, conduziu a conversa diante de um auditório lotado.
“Inovar pelo afeto é reconhecer que só a fragilidade nos protege, permitindo-nos dividir preocupações em vez de sucumbirmos sozinhos na falsa força da resiliência, e entender que cada pequeno gesto de atenção hoje é o que formará, no futuro, a nossa fortuna da saudade”, disse.
Memórias da vida

Ao longo da apresentação, Carpinejar propôs uma viagem por memórias da infância e da juventude, contrastando hábitos de outras gerações com o imediatismo e a necessidade de exposição permanente que atravessam a vida contemporânea. A reflexão sobre o tempo também abriu espaço para falar de escolhas, vínculos familiares e da maneira como as experiências do passado moldam a forma como nos relacionamos no presente.
Um dos relatos compartilhados pelo escritor remonta aos seus sete anos, quando médicos afirmaram que ele não teria capacidade de aprender a ler ou escrever. Sua mãe, no entanto, rejeitou o diagnóstico e decidiu educá-lo em casa, utilizando jogos educativos e atividades lúdicas.
“Precisamos entender que, se nossos pais não foram bons, ainda assim eles deram tudo o que tinham e foram as suas melhores versões; se não nos beijavam e abraçavam, é porque também não foram beijados na infância, pois você somente pode dar o que recebe”, disse, emocionando o público.
A relação entre presença e memória também apareceu em uma das principais reflexões da palestra:
“Ser filho é uma escolha que fazemos pelo afeto, definindo em algum momento: ‘esses são os meus pais’. O que eles mais querem não é o impossível, é apenas que você esteja ali, deixando pequenas moedas de atenção que, no fim, formarão a fortuna da saudade. A saudade significa que você esteve presente e tem o que lembrar; triste mesmo é se arrepender de não ter estado lá.”
A apresentação reuniu reflexões sobre tempo, decisões, memórias e a importância de observar a vida a partir de diferentes perspectivas. Ao final, Carpinejar resumiu sua visão sobre felicidade em uma imagem simples: um filme de baixo orçamento. “A gente não precisa de muito para ser feliz, basta apenas estar presente”, concluiu.
Rolê REC’n’Play
A programação do Rolê REC’n’Play segue neste sábado (15), último dia do festival, com atividades que ampliam o diálogo entre tecnologia, cultura, criatividade e desenvolvimento regional.
Entre os destaques estão o lançamento oficial da plataforma PE na Arte, oficinas de Python, MIT App Inventor, cultura maker e cerâmica, além de debates sobre inteligência artificial, cibersegurança, economia criativa, interiorização da inovação e os novos territórios do cinema pernambucano. A programação também inclui apresentações voltadas ao público infantil, como o show do Mundo Bita, encerrando uma jornada que aproximou inovação e experiências do cotidiano em diferentes espaços de Caruaru.

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