Painel de abertura da conferência reuniu lideranças para discutir os desafios de construir negócios de tecnologia em um mercado cada vez mais complexo

O modelo de inovação baseado na crença de que uma “boa ideia na garagem” e uma startup isolada são suficientes para construir um ecossistema sustentável está esgotado. A avaliação contundente marcou o painel de abertura da edição de 10 anos do Mangue.Bit, conferência realizada pela comunidade de startups Manguezal no Cais do Sertão, no Recife, nesta quarta-feira (23).
Ao analisar os 25 anos de articulação do Porto Digital e os 30 anos de atuação do CESAR, os líderes Pierre Lucena e Karla Godoy defenderam que os problemas atuais do mercado exigem densidade científica, financiamento robusto e integração de toda a cadeia — desde a universidade até as grandes corporações.
“Ideia não cria negócio; o que cria negócio é resolução de problemas”
Para o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, os ambientes de inovação que insistirem em focar apenas na fase inicial do empreendedorismo (early stage) não resistirão à complexidade do cenário tecnológico e econômico atual. Ele enfatizou que a sustentabilidade do setor depende do funcionamento integrado de toda a jornada produtiva.
“Ambientes de inovação que vivem de startup vão morrer. Vão morrer porque quem alimenta o ecossistema todo é a cadeia inteira: é o empreendedorismo lá no início da universidade, precisa ter tração, mas precisa ter empresa grande que bote grana também lá na frente. Ambientes de inovação precisam ter todas essas fases da cadeia, porque, se depender só da startup, não vai aguentar essa complexidade que a gente vive agora”, disse.

Lucena explicou que os desafios do mercado já não permitem soluções superficiais, exigindo aportes financeiros significativos e profundidade tecnológica que startups isoladas não conseguem bancar sozinhas.
“A gente está vivendo um momento em que, primeiro, eu até digo: ideia não cria negócio nenhum; o que cria negócio é resolução de problemas. Aí você vai ter uma ideia para resolver aquele problema. Negócios de base tecnológica são assim. Estava na cara que precisava surgir um banco digital ou um e-commerce para o varejo tradicional. Hoje não está na cara. Os problemas estão muito mais complexos, precisam de muito mais tecnologia, precisam de muito mais dinheiro.”
Como exemplo de articulação prática com grandes players do mercado tradicional, Pierre destacou a presença de corporações e do NERD, nova plataforma de negócios do ecossistema. “A proposta é aproveitar a inteligência coletiva que tem aqui.”
“Os problemas simples já foram resolvidos”
A executiva do CESAR, Karla Godoy, ressaltou que a criação de novos negócios de tecnologia de alto impacto (deep techs) exige um volume de conhecimento científico e fomento que vai muito além de ter apenas uma boa ideia. Ela citou o exemplo do centro de cibersegurança CISA, mantido pelo CESAR com recursos da Embrapii e 130 pesquisadores dedicados.
“Tem time no CISA que pensa quais são os problemas que a gente vai resolver. Startup é isso, não é ter uma ideia. Você está resolvendo o quê? Como é que se financia startup? Conhecimento. Tem que ter a pesquisa, um grupo olhando realmente para poder a gente ter condições de estar resolvendo problemas que não foram resolvidos até agora, porque os problemas simples já foram resolvidos”, disse Godoy.

Karla também lembrou que a busca por cases históricos de sucesso nascidos no Recife, como Tempest e Neurotech, só será reeditada se houver investimento contínuo na formação de cientistas-empreendedores.
“A gente precisa ter novos casos como esse para poder trazer aqui e dizer: ‘Saiu do CESAR, saiu do Porto Digital uma nova Tempest’. Não é fácil, mas é com conhecimento, é juntando muitos pesquisadores, é buscando recurso que vai sair a nova Tempest nos próximos anos”, continuou.
Ao concluir sua análise sobre a dinâmica do ecossistema pernambucano, Karla definiu a essência do conceito de hub, sublinhando a dependência mútua entre os diferentes atores para a geração de valor real.
“Acho que é parceria e é saber que eu tenho parte da capacidade, não tenho tudo. O Porto Digital tem parte de uma capacidade. As startups são ágeis, sabem resolver problemas rápidos, têm parte de uma capacidade que talvez o CESAR não tenha. E o governo tem outro, tem o financiamento. Então, eu acho que o hub é isso: só funciona se todo mundo entender que você tem uma parte da solução e você precisa complementar com os demais players”, completou.

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