Como a interseção de excelência acadêmica na codificação de software, afeto por um centro histórico e colisões de conhecimento ativaram o Porto Digital, provando que um distrito de inovação urbano nasce de microfundações emocionais e se consolida com a complexidade produtiva.
O Porto Digital é um distrito de inovação localizado na antiga área portuária do Recife, Pernambuco, Brasil. Criado como uma política pública no ano 2000, é mantido por uma robusta governança público-privada que explica seu crescimento e vitalidade. Hoje, o Porto Digital é ocupado por mais de 500 empresas inovadoras de software e centros de inovação em TI, responsáveis por mais de 21.000 empregos e impactando com retrofits 230.000 m² de edifícios históricos protegidos por lei.
Quando governos e urbanistas tentam criar o próximo “Vale do Silício”, o instinto natural é olhar para a macroeconomia: constroem-se parques tecnológicos isolados e imponentes, oferecem-se isenções fiscais massivas de cima para baixo e desenham-se planos diretores grandiosos. No entanto, a literatura acadêmica recente e a prática do urbanismo contemporâneo nos mostram que a inovação não é uma máquina que se liga simplesmente ao plugar na tomada.
A inovação é orgânica. A gênese de um cluster de sucesso nasce de algo muito mais profundo, caótico e humano: o que Aversa, Furnari e Jenkins (2022) chamam de “A Sopa Primordial”.
Como urbanista focado na regeneração de lugares centrais, compreendi que, para desenhar o futuro, precisamos entender os mecanismos microscópicos que unem as pessoas a um território. Ao cruzar a teoria das microfundações emocionais da gênese de clusters (AVERSA; FURNARI; JENKINS, 2022), a teoria da Complexidade Econômica (HIDALGO; HAUSMANN, 2009), a emergente literatura sobre o Sentido de Lugar (DAVIS; WAGNER, 2024), a geografia humanista (SEAMON, 2026), a prosperidade sensível ao lugar (RODRÍGUEZ-POSE, 2026) e os relatos históricos do livro Porto Digital: Inovação e preservação no Centro Histórico do Recife (2023), eu proponho neste artigo um nova narrativa para o surgimento de clusters de inovação em centros históricos de cidades latino-americanas.
Veremos como o Recife ativou a sua “sopa primordial” e utilizou o seu patrimônio urbano como palco para transformar um espaço abandonado em um “lugar” de inovação, fazendo dos encontros ao acaso (serendipity) a matéria-prima da sua sofisticação econômica.
1. A Química da Sopa Primordial e a Fuga de Cérebros
Na biologia, a vida surgiu de uma “sopa primordial” onde ingredientes básicos interagiram sob as condições certas. Na geografia econômica, Aversa, Furnari e Jenkins (2022) dão a isso o nome de reposicionamento de domínios (Domain Repurposing): o processo em que atividades originadas puramente por interesse acadêmico, hobby ou paixão são empurradas por “gatilhos” para se tornarem clusters comerciais.
A história do Porto Digital ilustra esse fenômeno com perfeição. Na década de 1990, o Recife vivia um paradoxo. Por um lado, o Bairro do Recife (a ilha de fundação da cidade) encontrava-se em estado de profundo abandono, ocupado por construções precárias e visível decadência física. Por outro lado, o Departamento de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) formava uma massa crítica de excelência acadêmica.
Essa era a nossa sopa primordial: a paixão pelo código. Contudo, o estado sofria com uma severa fuga de cérebros para megacidades como São Paulo. A crença ortodoxa da época ditava que apenas metrópoles gigantescas poderiam ancorar a inovação. No entanto, a geografia econômica contemporânea já comprova o colapso do “mito da megacidade”: o sucesso territorial não depende do tamanho colossal da conurbação, mas sim da qualidade das suas instituições e ecossistemas locais (RODRÍGUEZ-POSE, 2026).
O Recife estava prestes a provar isso na prática. O gatilho de reposicionamento ocorreu em 1996, com a criação do C.E.S.A.R. (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), desenhado como uma ponte entre a academia e o mercado pelos professores do Departamento de Informática. A sopa primordial estava fervendo e pronta para transbordar, mas precisava de uma âncora territorial.
2. A “Paixão Localizada”, a Metáfora Mobilizadora e as Terrae Incognitae
Por que o polo de tecnologia não se fixou no próprio campus universitário ou nos subúrbios da cidade? É aqui que entra o mecanismo da Paixão Localizada (Localizing Passion).
As pessoas se tornam afetivamente apegadas aos ambientes, e essa emoção coletiva funciona como um catalisador aglutinador (sticky catalyst) que atrai e retém a indústria, impedindo que os talentos se dispersem (AVERSA; FURNARI; JENKINS, 2022). Como argumenta a fenomenologia do lugar, a inovação orgânica não ocorre no vácuo; ela ocorre em um Mundo da Vida (Lifeworld), conceituado pelo dinamismo da relação existencial e cotidiana das pessoas com seus ambientes (BUTTIMER apud SEAMON, 2026). O talento humano produtivo e criativo está sempre inexoravelmente “enraizado” (always emplaced) (CASEY; MALPAS apud SEAMON, 2026), necessitando de uma geografia com forte significado existencial.
Na minha perspectiva de urbanista e executivo do setor público no ano 2000, com a responsabilidade de coordenar a política pública que deu origem ao distrito de inovação do Porto Digital na antiga área portuária do Recife, a escolha do centro histórico baseou-se diretamente nessa paixão localizada, visando a “reapropriação afetiva do lugar pelos pernambucanos”. A liderança do Porto Digital soube mapear o que a geografia humanista chama de terrae incognitae (WRIGHT apud SEAMON, 2026) — a intrínseca relação entre o mundo físico exterior e as imagens subjetivas em nossa mente.
O projeto foi lançado acessando o imaginário afetivo dos pernambucanos com uma metáfora mobilizadora irrecusável: o território que, desde o século XVII, operava como plataforma portuária para a economia do açúcar agora organizaria os fluxos invisíveis da economia dos bits. A infraestrutura histórica operou como um imenso poder de ancoragem, conferindo ao ecossistema uma carga identitária impossível de ser replicada em torres de vidro numa zona suburbana.

3. Do Espaço ao Lugar: Placelessness e Placemaking
Para que a “Paixão Localizada” atue, é preciso haver uma transformação filosófica e tática na paisagem. A literatura de geografia humana faz uma distinção crucial: o espaço é uma coordenada física e abstrata; o lugar é o espaço imbuído de significado, memória e interações sociais (MASSEY, 2005 apud DAVIS; WAGNER, 2024).
Pesquisas recentes evidenciam que a produção e o consumo de Distritos de Inovação dependem criticamente do fortalecimento de um sentido de lugar (sense of place) (DAVIS; WAGNER, 2024). Quando os gestores urbanos focam no placemaking — o ato de desenhar a rua para as pessoas —, eles não estão apenas embelezando a cidade; estão fortalecendo o sentido de comunidade e promovendo uma integração societal que vai muito além de um mero agrupamento imobiliário de empresas (PANCHOLI; YIGITCANLAR; GUARALDA, 2018 apud DAVIS; WAGNER, 2024).
No caso do Porto Digital, a reabilitação dos casarões e ruas de paralelepípedo não foi uma reforma estética, mas um combate direto aos “não-lugares” (placelessness), conceito que descreve a trágica criação de espaços genéricos e sem identidade, típicos do planejamento modernista (RELPH apud SEAMON, 2026). Em vez de recorrer a planos diretores puramente abstratos, a intervenção no Porto Digital foi uma ação que gerou forte apego ao lugar (place attachment) e identidade (place identity) (LEWICKA, 2008 apud DAVIS; WAGNER, 2024).
Ao focar no placemaking (desenho do espaço para as pessoas), a experiência tangível e direta do Bairro do Recife recuperado deixou de ser mero suporte de infraestrutura para se tornar um ambiente vivencial vibrante (third space), criando a atmosfera necessária para que a mente humana se sinta inspirada.
4. Caminhabilidade, Serendipidade e a Complexidade Produtiva
Mas como essas interações em um “lugar” identitário se traduzem em riqueza e sofisticação tecnológica? A resposta está na Teoria da Complexidade Econômica e no papel vital da serendipidade.
César Hidalgo e seus colaboradores demonstram que a riqueza de uma região não se baseia no volume bruto do que ela produz, mas na diversidade e sofisticação do conhecimento que ela consegue combinar (HIDALGO; HAUSMANN, 2009). Esse conhecimento produtivo — especialmente o “conhecimento tácito” (aquele que não está nos manuais, mas reside na mente das pessoas) — é altamente “viscoso” e geograficamente restrito (HIDALGO, 2015).
Nesse processo de recombinação de ideias, a serendipidade — a capacidade de fazer descobertas felizes e inusitadas ao acaso — atua como um acelerador fundamental. No Porto Digital, essa dinâmica foi intencionalmente projetada através da malha urbana histórica.
Na minha perspectiva de planejador urbano, gosto de ressaltar a importância da caminhabilidade de 5 minutos: um desenho urbano onde um raio de 350 metros conecta a esmagadora maioria das pessoas que trabalham em um determinado território. Essa proximidade extrema transforma o lugar num verdadeiro “reator nuclear” de colisões de conhecimento. Quando desenvolvedores, designers, empreendedores e os visitantes se esbarram nos cafés, nas calçadas ou em eventos locais (como no festival Rec‘n’Play de tecnologia e cultura), o acaso favorece as mentes preparadas. É o encontro fortuito (serendipitous interaction) que funde blocos de conhecimento distintos, elevando a complexidade do software e serviços produzido pelo ecossistema.

5. Continuidade e Conservação Inovadora: Do Açúcar ao Software
Existe um mito de que a tecnologia apaga o passado. A experiência do Porto Digital prova o oposto: empresas da nova economia são excepcionais agentes de conservação patrimonial (VILELA; LACERDA, 2023).
Como o trabalho com a complexidade da informação não exige maquinário pesado, os grandes vãos livres dos antigos armazéns do porto tornaram-se ideais para a “conservação inovadora”, que respeita a volumetria histórica enquanto insere infraestrutura de ponta. O meio mudou do açúcar para o software, mas o Recife manteve sua vocação evolutiva como hub roteador de conexões complexas.
6. Um Roadmap para Orquestradores de Cidades
A leitura da gênese do Porto Digital sob as lentes da “Sopa Primordial”, do “Sentido de Lugar” e da “Complexidade Econômica” nos deixa lições cristalinas para a regeneração urbana:
- Ative a Sopa Primordial: Não invente vocações do zero. Mapeie o conhecimento tácito existente e dê o próximo passo lógico baseado nas identidades locais (HIDALGO, 2015; AVERSA et al., 2022).
- Transforme Espaços em Lugares (Placemaking): Combata o “não-lugar” (placelessness) garantindo que o centro histórico funcione como um genuíno Mundo da Vida (Lifeworld; SEAMON, 2026) . Abandone o fetiche do tamanho da cidade e da “força bruta” metropolitana para construir uma prosperidade “sensível ao lugar” (place-sensitive prosperity), que não tente copiar o Vale do Silício, mas que avance a partir dos ativos locais (RODRÍGUEZ-POSE, 2026). O afeto pelo lugar constrói a identidade da comunidade e atua como o maior fator de enraizamento (emplacement) de talentos criativos num mundo de alta mobilidade (SEAMON, 2026; DAVIS; WAGNER, 2024).
- Desenhe para a Serendipidade e Colisões: Concentre as âncoras de inovação em raios curtos e caminháveis (ex: 350 metros). O urbanismo deve forçar o encontro fortuito no espaço público, pois é a colisão face a face que gera a recombinação de ideias necessária para atingir altos níveis de Complexidade Produtiva.
- Construa uma Orquestração Cívica: Como ressalta a literatura mais recente, não é o tamanho da sua cidade que importa, mas o que você coloca nela (RODRÍGUEZ-POSE, 2026). O sucesso exige governança público-privada plural e robusta, garantindo que a transformação de lugares sobreviva a rupturas políticas (RAMALHO; CALHEIROS, 2023).
Conclusão
A história da transformação do Bairro do Recife nos ensina que a infraestrutura física de uma cidade só ganha vida quando habitada por pessoas engajadas. O Porto Digital triunfou porque não apenas importou tecnologia; ele utilizou o magnetismo e a memória do seu centro histórico para juntar pessoas brilhantes em “lugares” carregados de afeto.
Ao fomentar a caminhabilidade e o placemaking, o projeto estimulou a serendipidade. Ambientes urbanos inovadores não se constroem apagando o passado ou instalando infraestrutura em lugares remotos, mas utilizando a paixão como liga e as ruas históricas como uma potente máquina geradora de encontros e pertencimento.
Referências Bibliográficas
AVERSA, P.; FURNARI, S.; JENKINS, M. The Primordial Soup: Exploring the Emotional Micro-Foundations of Cluster Genesis. Organization Science, v. 33, n. 4, p. 1340-1371, 2022.
DAVIS, A.; WAGNER, B. Understanding the role of ‘sense of place’ in the production and consumption of innovation districts. Innovation: Organization & Management, p. 1-22, 2024.
ELLERY, P.; ELLERY, J. Strengthening community sense of place through placemaking. Urban Studies, v. 4, n. 2, p. 237-248, 2019.
HIDALGO, C. A. Why Information Grows: The Evolution of Order, from Atoms to Economies. New York: Basic Books, 2015.
HIDALGO, C. A.; HAUSMANN, R. The building blocks of economic complexity. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 106, n. 26, p. 10570-10575, 2009.
LEWICKA, M. Place attachment, place identity, and place memory: Restoring the forgotten city past. Journal of Environmental Psychology, v. 28, n. 3, p. 209-231, 2008.
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MASSEY, D. For space. Sage, 2005.
MEIRA, S.; LUCENA, P.; GATIS, G. Embarque imediato: as estratégias de formação de capital humano para tecnologia no Recife. In: QUERETTE, E.; GUIMARÃES, L. (Orgs.). Porto Digital: Inovação e preservação no Centro Histórico do Recife. Recife: Cepe, 2023. p. 79-97.
PANCHOLI, S.; YIGITCANLAR, T.; GUARALDA, M. Societal integration that matters: Place making experience of Macquarie Park Innovation District, Sydney. City, Culture & Society, v. 13, p. 13-21, 2018.
QUERETTE, E.; GUIMARÃES, L. Introdução. In: QUERETTE, E.; GUIMARÃES, L. (Orgs.). Porto Digital: Inovação e preservação no Centro Histórico do Recife. Recife: Cepe, 2023. p. 11-19.
RAMALHO, G.; CALHEIROS, G. Como a governança ajudou a superar as crises do crescimento do Porto Digital. In: QUERETTE, E.; GUIMARÃES, L. (Orgs.). Porto Digital: Inovação e preservação no Centro Histórico do Recife. Recife: Cepe, 2023. p. 99-141.
RODRÍGUEZ-POSE, A. Why size really doesn’t matter: from megacity myths to place-sensitive prosperity. Spatial Economic Analysis, London, v. 20, 07 Jan 2026.
SEAMON, D. Celebrating humanistic geography and forecasting its robust future via phenomenology. Scottish Geographical Journal, 12 Feb 2026.
VILELA, G.; LACERDA, N. Porto Digital e o mercado de tecnologia como elemento propulsor da revitalização do Bairro do Recife. In: QUERETTE, E.; GUIMARÃES, L. (Orgs.). Porto Digital: Inovação e preservação no Centro Histórico do Recife. Recife: Cepe, 2023. p. 173-195.

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