Hoje marcada pela convivência cotidiana, pelos eventos culturais e pelo fluxo de visitantes, a Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, já abrigou um monumento que praticamente se apagou da memória urbana: um obelisco de cerca de 15 metros de altura erguido no início do século XX.

Recentemente requalificado em uma ação de mitigação do Moinho Recife Business & Life, o espaço passou por diversas transformações ao longo do tempo. Foi durante uma dessas mudanças que o monumento desapareceu, provavelmente demolido durante a implantação do projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, em meados da década de 1930.

Cartão postal enviado para a França mostra o antigo obelisco na Praça Arthur Oscar (ou do Arsenal). Crédito BV Colecionismo

Uma redescoberta mais nítida dessa história começou nos anos 1990, quando o Grupo Votorantim assumiu a manutenção da praça em parceria com o poder público e convidou o pesquisador Luís Pessoa para realizar um levantamento histórico do local.

Entre documentos e registros dispersos, Pessoa encontrou a imagem do obelisco em um antigo postal suíço, ponto de partida para uma investigação que se estenderia por meses em arquivos, museus e bibliotecas. Parte desse percurso ajuda a recompor a trajetória de um monumento que, apesar de imponente, desapareceu sem deixar rastros evidentes.

Um monumento à Independência

Construído em alvenaria, com medalhões de bronze e base em mármore de Carrara, o obelisco foi inaugurado em 24 de setembro de 1904 como homenagem à Independência do Brasil, erguido com contribuições financeiras da própria população.

A inauguração foi marcada por uma programação festiva que mobilizou a cidade: missa campal, recepção no Clube Internacional, regata no Capibaribe e desfile de carros alegóricos. Entre as autoridades presentes estavam o governador Sigismundo Gonçalves e o prefeito Martins de Barros.

Imagem do Recife feita por Josebias Bandeira no início do século XX mostra a ponta do obelisco na parte inferior. Crédito: Fundação Joaquim Nabuco

Durante a pesquisa, chamou a atenção de Luís Pessoa o fato de que a retirada do monumento não recebeu registro significativo em jornais ou documentos oficiais da época. Tampouco houve manifestações públicas conhecidas em defesa da preservação do obelisco.

Hipóteses levantadas inicialmente incluíam desde motivações políticas até a substituição pelo busto do Almirante Tamandaré, instalado em 1948. A incompatibilidade entre as datas, porém, enfraqueceu essas interpretações.

A explicação mais plausível — posteriormente confirmada por outros estudos — relaciona o desaparecimento às intervenções de modernização da praça na década de 1930. A pesquisadora Aline de Figueiroa Silva registra que o monumento foi destruído, informação apresentada no livro “Jardins do Recife: Uma história do paisagismo no Brasil (1872-1937)”.

Notícia do “Diario de Pernambuco”, em 1936, denuncia abandono de praças Crédito: via Biblioteca Nacional

A edição de 5 de maio de 1936 do “Diario de Pernambuco”, ao comentar o abandono das praças da cidade em uma notícia, menciona a presença de “um velho obelisco”, sinalizando que o monumento ainda existia naquele período.

Transformações da Praça do Arsenal

O logradouro surgiu na área portuária com o nome de Praça dos Voluntários da Pátria, passando a ser popularmente conhecido como Praça do Arsenal pela proximidade com o antigo Arsenal da Marinha — complexo do qual a Torre Malakoff também fazia parte. Oficialmente, o espaço recebeu o nome de Praça Artur Oscar, referência ao general que comandou a campanha de Canudos.

Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, no projeto original de Roberto Burle Marx. Crédito: Acervo PCR

Ao longo do século XX, a praça foi alvo de sucessivas intervenções urbanas. A mais emblemática ocorreu a partir de 1934, com o projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, responsável por redefinir a relação entre vegetação, circulação e uso público do espaço.

A requalificação realizada em 2025 buscou recuperar esse desenho original, removendo elementos introduzidos nas décadas posteriores (como fonte ornamental, gradis e estruturas que fragmentavam a área) e restabelecendo a ideia de esplanada aberta.

A intervenção também valorizou a presença da flora brasileira e instalou bancos contemporâneos junto às árvores mais antigas, reinterpretando soluções já utilizadas por Burle Marx para proteção da vegetação.

Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, após reforma de 2025. Crédito: Prefeitura da Cidade do Recife

Hoje, sem vestígios físicos do monumento, o obelisco permanece como uma lembrança de uma paisagem que já não existe, mas que ajuda a compreender as camadas que moldaram a Praça do Arsenal ao longo do tempo.

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