Investimento do país em P&D (I&D, em Portugal) atingiu cerca de 5,0 bilhões de euros, correspondendo a 1,73% do PIB

Por Marcela Valença e Luiz Maia*
O esforço de Portugal em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) tem avançado de forma consistente ao longo da última década, mesmo diante de um contexto internacional marcado por incertezas econômicas.
Em 2024, o investimento em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), equivalente a I&D (Investigação e Desenvolvimento) em Portugal, atingiu cerca de 5,0 bilhões de euros, correspondendo a 1,73% do PIB.
É um salto relevante em relação a 2015, quando esse indicador era de 2,2 bilhões de euros (1,25% do PIB). Trata-se, portanto, de uma trajetória clara de expansão, com crescimento contínuo tanto em termos absolutos quanto relativos.

Os dados, divulgados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) evidenciam não apenas o aumento do volume de recursos, mas também uma transformação qualitativa do sistema. Mais de 60% do investimento em P&D já é realizado pelo setor empresarial, sinalizando um ecossistema de inovação progressivamente mais dinâmico, orientado ao mercado e menos dependente do financiamento público.
Esse movimento é acompanhado por uma expansão do número de pessoas dedicadas à pesquisa. O total superou 84 mil pessoas em 2024, com cerca de 65 mil investigadores, reforçando a capacidade do país em produzir conhecimento e inovação.
A evolução desses indicadores sugere um alinhamento crescente entre formação de capital humano qualificado e as demandas de um sistema produtivo em transformação:

Ainda que Portugal permaneça abaixo da meta de 3% do PIB estabelecida pela União Europeia (para 2030), o avanço na última década demonstra um esforço consistente de convergência. Em um cenário global competitivo, o país tem conseguido fortalecer seu ecossistema científico e tecnológico, ampliando a participação empresarial, qualificando sua base de pesquisadores e consolidando uma trajetória de crescimento que, embora desafiadora, aponta para um futuro mais intensivo em inovação.
Oportunidades para startups brasileiras

Nesse contexto, o ambiente português de ciência, tecnologia e inovação pode representar uma grande oportunidade para startups e empresas brasileiras, especialmente aquelas do setor de TIC interessadas em estratégias de internacionalização.
A combinação entre crescimento consistente dos investimentos em P&D, maior protagonismo empresarial e ampliação da base de talentos qualificados cria condições favoráveis para a inserção de novos atores no ecossistema.
Nesse sentido, a presença do Cais do Porto, iniciativa do Porto Digital em Portugal, constitui um excelente ponto de partida para empresas que desejam iniciar essa jornada, oferecendo apoio institucional, conexões estratégicas e facilitação de acesso ao mercado europeu.
Como destaca Marcela Valença, “Portugal reúne hoje um conjunto raro de atributos para empresas brasileiras que desejam se internacionalizar com segurança e visão estratégica. Há um ambiente regulatório estável, incentivos à inovação, acesso a talentos qualificados e, sobretudo, uma porta de entrada privilegiada para o mercado europeu. Iniciativas como o Cais do Porto funcionam como catalisadores desse processo, reduzindo barreiras e acelerando a integração das empresas ao ecossistema local.”

Esse posicionamento reforça a percepção de que Portugal vai além de um destino atrativo, tem se tornado também uma plataforma estratégica para expansão global. A proximidade cultural e linguística, aliada à maturidade institucional e à crescente sofisticação do ambiente de inovação, cria um terreno fértil para parcerias, desenvolvimento tecnológico e acesso a novos mercados. Para empresas brasileiras, especialmente as de base tecnológica, isso representa uma oportunidade concreta de escalar operações com menor fricção.
Além disso, o fortalecimento contínuo do investimento em ciência e tecnologia tende a gerar efeitos multiplicadores na economia portuguesa, ampliando a demanda por soluções inovadoras e favorecendo a entrada de novos players. Startups e empresas que se inserem nesse contexto passam a integrar redes colaborativas internacionais, acessar financiamento europeu e participar de cadeias globais de valor, elevando seu nível de competitividade.
Dessa forma, a trajetória recente de Portugal em CTI, combinada com iniciativas de apoio à internacionalização, consolida o país como um hub natural para empreendedores brasileiros. Mais do que uma tendência passageira, trata-se de um movimento estrutural que posiciona Portugal como ponte entre o Brasil e a Europa, abrindo caminhos para uma nova fase de crescimento, inovação e cooperação entre os dois países.
*Marcela Valença é Country Operations Manager do Cais do Porto
*Luiz Maia é pesquisador do Porto Digital e professor da UFRPE
Esse texto é a segunda parte da série “Ponte de Dados”, elaborada pelos autores para o Jornal Digital. Leia a primeira parte:

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