Conduzido pelo professor Luciano Meira e pela pesquisadora Tanci Simões, evento optou por promover uma discussão a partir daquilo que tem dado errado com IA nas salas de aula

Conexão REC’n’Play discute IA na escola com Luciano Meira e Tanci Simões

Uma recente pesquisa da TIC Educação apontou que sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio usuários da internet utilizam ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, como o ChatGPT e o Gemini, para realizar pesquisas escolares. Em contrapartida, apenas 32% do total receberam alguma orientação nas escolas sobre como utilizar essa tecnologia — algo extremamente importante.

A realidade embutida nesses dados apareceu nas falas de diversos participantes do segundo Conexão REC’n’Play do ano, realizado nesta quarta-feira (29), no auditório do Porto Digital. Conduzido pelo professor Luciano Meira e pela pesquisadora Tanci Simões, o evento optou por promover uma discussão a partir daquilo que tem dado errado nas salas de aula.

Diferentemente de apresentações puramente teóricas, o painel incentivou a participação do público, com orientações para que cada participante explicasse o contexto vivido em sua experiência.

Entre os relatos, surgiram questões como déficit de aprendizagem dos estudantes, redações zeradas por fuga ao tema, desconhecimento sobre a natureza da IA por parte de educadores e até o compartilhamento de dados sensíveis em plataformas gratuitas e não seguras.

Conexão REC’n’Play discute IA na escola com Luciano Meira e Tanci Simões

Visão dos especialistas

Na visão de Luciano Meira, os estudantes precisam compreender bem o funcionamento e a natureza da IA para desenvolver uma visão crítica. “É possível propor imersões e experiências em que eles aprendam sobre o funcionamento de algoritmos e como eles produzem vieses. Isso pode ocorrer de forma desplugada, sem uso da IA”, diz.

Ele acrescenta que, para implementar a IA com mais sucesso, será necessária uma mudança nos fundamentos pedagógicos das escolas. “Não podemos continuar digitalizando processos que já deveríamos ter abandonado há um século e que, infelizmente, ainda ocorrem”, afirma.

“Trabalhamos muitas vezes com a domesticação da tecnologia. Quando surgiram os computadores, as escolas criaram laboratórios de informática. Colocaram toda a pedagogia que já existia ali. Depois, proibiram os smartphones. Com a IA, talvez fique claro que precisamos rever esses fundamentos.”

Conexão REC’n’Play discute IA na escola com Luciano Meira e Tanci Simões

Para Tanci Simões, uma das dificuldades está na própria taxonomia para definir o que é a IA. “Muitas vezes discutimos qual o melhor tipo de IA para um professor, aluno ou gestão, mas a IA costuma estar embarcada em plataformas que já usamos para muitas outras coisas, de forma que não está caracterizada da maneira apropriada para aquele ambiente”, disse.

Ela também descreve como a inteligência artificial pode tornar o processo ainda mais passivo para o estudante. “Antigamente, ele pelo menos entrava no primeiro link do Google. Hoje em dia, nem no primeiro link ele entra; faz qualquer pergunta ‘mal-assombrada’ dentro do ChatGPT, e a resposta já vem estruturada em formato de parágrafo.”

Ao longo de todo o encontro, Tanci alertou para o hábito de dar nomes modernos a métodos de ensino que continuam ultrapassados: “O ponto é que, quando começamos a olhar para o futuro, precisamos evitar apenas renomear o que já conhecemos com novos termos, atribuindo nomes novos a velhas práticas e repetindo antigos modos de ensinar.”

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