Apresentação “Como se constrói um ecossistema”, conduzida pelo urbanista e cofundador do Porto Digital, Claudio Marinho, e pelo presidente da instituição, Pierre Lucena

Pierre Lucena e Cláudio Marinho durante palestra no Cesar Beat (Crédito: PC Pereira/Porto Divulgação)

O Porto Digital esteve entre as palestras magnas do Cesar Beat, evento que celebra os 30 anos do CESAR, com a apresentação “Como se constrói um ecossistema“, conduzida pelo urbanista e cofundador do Porto Digital, Claudio Marinho, e pelo presidente da instituição, Pierre Lucena.

Ao longo da conversa, os dois compartilharam reflexões sobre a trajetória do parque tecnológico recifense, desde os primeiros anos, quando a iniciativa parecia um “sonho” — ou, nas palavras de Marinho, uma “mentira realizável” — até a consolidação de um modelo que hoje busca combinar desenvolvimento econômico e impacto social.

A construção de um lugar com significado

Ao relembrar a origem do projeto, no início dos anos 2000, Claudio Marinho destacou que a essência do Porto Digital nunca esteve apenas na tecnologia, mas também na capacidade de construir novos significados para a cidade.

Segundo ele, o diferencial do ecossistema foi criar narrativas capazes de mobilizar pessoas e projetar futuros possíveis. Mais do que ocupar um território, a proposta era transformar o Bairro do Recife em um espaço dotado de identidade e propósito.

“O Recife é um lugar mais lovable (amável) do que livable (habitável)”, afirmou. Para Marinho, a estratégia passou por conviver com problemas históricos da cidade sem permitir que eles impedissem a construção do futuro.

Ele também ressaltou o papel da governança na continuidade do projeto. O modelo foi estruturado para reduzir interferências políticas, com um conselho em que o poder público ocupa posição minoritária.

O desafio de formar pessoas

Pierre Lucena durante palestra no Cesar Beat (Crédito: PC Pereira/Porto Divulgação)

Pierre Lucena relembrou que, em 2018, empresas instaladas no ecossistema enfrentavam dificuldades para contratar profissionais, chegando a recusar projetos pela falta de mão de obra qualificada. A resposta, segundo ele, veio com uma estratégia voltada à inclusão social.

Desenvolvido em parceria com a Prefeitura do Recife, o programa Embarque Digital passou a oferecer bolsas para estudantes da rede pública ingressarem em cursos ligados à tecnologia.

Ao detalhar o perfil dos participantes, Lucena destacou que 59% são pretos e pardos, enquanto 78% pertencem a famílias com renda de até três salários mínimos. Segundo ele, os resultados já mostram impacto concreto: 85% dos beneficiados mais do que dobraram a renda familiar após a formação e a entrada no mercado. “Não se faz inovação sem povo”, afirmou.

Um novo imaginário para a cidade

Para os palestrantes, as transformações impulsionadas pelo Porto Digital ultrapassam indicadores econômicos e números de faturamento. Pierre Lucena projetou um futuro em que o perfil dos profissionais de tecnologia no Recife deverá refletir uma base social mais diversa. “Daqui a alguns anos, a gente vai começar a ver a periferia do Recife ocupando as vagas de trabalho”, disse.

Nesse cenário, a chegada de empresas como Deloitte e Capgemini ao centro da cidade aparece como consequência direta da aposta na formação de capital humano.

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.