Criadora do “Não Inviabilize” compartilhou experiências sobre narrativa, criatividade e os caminhos que transformaram seu podcast em um fenômeno do áudio digital

Déia Freitas no Rolê REC’n’Play 2026, em Caruaru (Crédito: PC Pereira/Porto Digital)

Ser uma boa contadora de histórias não depende apenas de talento natural. Para Déia Freitas, técnica, roteiro e estrutura são fundamentais para transformar uma experiência em uma narrativa capaz de prender a atenção do público. Criadora do podcast “Não Inviabilize”, a podcaster compartilhou esses e outros aprendizados durante o Rolê REC’n’Play, em Caruaru. O painel, que também contou com a criadora de conteúdo digital Hevelly Cavalcante, ocorreu neste sábado (15), terceiro e último dia do festival.

Psicóloga, ativista e podcaster, Déia se tornou uma das principais referências brasileiras em narrativas a partir de histórias reais. Ao contar relatos enviados por desconhecidos (muitas vezes sobre momentos de vulnerabilidade), construiu uma comunidade de ouvintes e transformou o “Não Inviabilize” em um fenômeno do áudio digital. Em abril deste ano, o programa alcançou a 12ª posição no ranking dos 20 podcasts mais ouvidos de todos os tempos no Spotify, sendo o único representante brasileiro na lista. O programa já soma mais de 500 milhões de reproduções.

Durante o painel, Déia explicou que a construção de uma boa história passa justamente pela capacidade de identificar seus pontos centrais e organizar a narrativa para criar expectativa no público.

“Com técnica e um bom roteiro, você consegue estruturar a sua história, sabendo o que você quer deixar para o final. Geralmente, quando as pessoas me escrevem, elas têm uma associação livre de pensamentos. Elas vão contar ali a história do jeito delas e eu vejo o que eu quero destacar dali, o que vou deixar pro final, como eu vou começar aquela história. Isso eu aprendi com o curso de roteiro”, disse.

De caixas de papelão ao projeto “Construponei”

Déia Freitas e Hevelly Cavalcante e painel no Rolê REC’n’Play 2026, em Caruaru (Crédito: PC Pereira/Porto Digital)

A trajetória de Déia Freitas também foi apresentada como exemplo de resiliência e de construção de uma carreira a partir de recursos limitados. Ex-gerente de loja de shopping, ela iniciou o podcast sem uma estrutura profissional de gravação e chegou a improvisar um estúdio dentro de uma caixa de papelão.

“No começo eu não tinha nenhum material de estrutura. Eu gravava dentro de uma caixa de papelão, sentada numa caixa de papelão para não ter barulho externo. Só que eu tinha seis gatos na época e eles atacavam a caixa para destruir o meu lugar de trabalho. Quando eu comecei a aparecer fisicamente, as pessoas falavam: ‘Nossa, eu pensava que você fosse loira pela sua voz’. Eu sentia um pouco de racismo, porque por que a pessoa ia achar que eu sou loira?”

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A transformação do projeto também se refletiu na forma como Déia passou a direcionar os resultados financeiros de seu trabalho. Entre as iniciativas está a Construponei, projeto voltado à construção de moradias para famílias que não têm acesso ao crédito habitacional tradicional.

“A ideia é que a gente consiga construir casas para pessoas de baixa renda que estão abaixo da linha do Minha Casa Minha Vida, pensando na realidade delas, nos animais que elas têm, não construindo caixotes quentes só para a pessoa ter um teto. Eu sou do tipo que acredita que o pobre tem que ter coisa boa, coisa bonita”.

Público lota palco para painel de Déia Freitas no Rolê REC’n’Play 2026, em Caruaru (Crédito: PC Pereira/Porto Digital)

Ao longo do painel, histórias pessoais, humor e reflexões sobre criação de conteúdo se misturaram à conversa sobre os caminhos possíveis para transformar experiências em narrativas. A participação de Déia também reforçou uma das propostas centrais do Rolê REC’n’Play: aproximar o público de diferentes formas de criação, inovação e expressão.

Na despedida, a podcaster deixou aberta a possibilidade de voltar a Caruaru para novas experiências.

“Depois daqui eu espero sair com mais ideias, conhecer mais pessoas e crescer. Se eu estiver atendendo às expectativas de vocês, eu espero ser convidada de novo, voltar aqui num outro evento e talvez contar uma história em um novo formato.”

Rolê REC’n’Play

O terceiro e último dia do Rolê REC’n’Play manteve a diversidade de temas que marcou a programação do festival, reunindo atividades sobre inteligência artificial, inovação, empreendedorismo, cultura, tecnologia e economia criativa.

Ao longo do sábado, o público também teve acesso a experiências práticas, oficinas, debates e atividades voltadas à criatividade e à formação, além de atrações culturais que encerraram a programação em clima de celebração.

Entre os destaques do dia estiveram encontros sobre o uso estratégico da IA, cibersegurança, inovação no Agreste, produção audiovisual, cultura popular e empreendedorismo, reforçando a proposta do festival de aproximar conhecimento, criatividade e oportunidades do público do interior.

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