Primeira edição do Diálogos IDG reuniu gestores e artistas para refletir sobre o papel do pensamento crítico e da curadoria humana diante do avanço da inteligência artificial

A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas a curadoria humana e o pensamento crítico são fundamentais para evitar que a história e a produção cultural sejam reduzidas a bolhas de consumo e aos modelos de linguagem desenvolvidos pelas big techs.
Esse foi um dos consensos da primeira edição do Diálogos IDG, realizada no Paço do Frevo, no Bairro do Recife, nesta segunda-feira (17), pela instituição gestora do museu. Participaram do debate Mariana Pincovsky, diretora executiva do Porto Digital; Ricardo Piquet, diretor do IDG; e o músico Lenine.
Pincovsky trouxe uma visão pragmática e crítica sobre a maneira como os algoritmos moldam escolhas cotidianas, do trajeto indicado pelo Waze ao conteúdo consumido nas plataformas de streaming. Para ela, a perda da curadoria humana é um dos grandes desafios contemporâneos.
“Se o Netflix me coloca em uma bolha e o Spotify em outra, como furo esse cercado? Para furar, precisamos criar seres pensantes e críticos, capazes de questionar o que vem pronto por um conjunto de dados.”

Apesar dos desafios, a diretora do ecossistema de inovação destacou que a relação entre avanço tecnológico e memória histórica não precisa ser de conflito, mas pode ser construída a partir de uma relação de simbiose. Ela relembrou que a própria gênese do Porto Digital, hoje o maior distrito de inovação da América Latina, esteve ligada à recuperação do tecido urbano e à preservação de centenas de prédios históricos no Bairro do Recife.
“Para nós, nada substitui esse patrimônio e, por isso, temos o compromisso com a preservação histórico-cultural como uma premissa da nossa própria fundação.”
Mariana também enfatizou que a inovação só cumpre seu papel social quando é inclusiva, defendendo o letramento digital como uma política pública essencial. A preocupação, segundo ela, é garantir que o avanço tecnológico não amplie desigualdades já existentes.
“Como inserimos essa população, os grandes mestres e artistas, mas também toda a parcela que ainda está fora do smartphone? Como colocamos essas pessoas dentro das novas tecnologias sem deixá-las para trás? Isso passa por formação e letramento digital, que deve ser papel de uma política pública para garantir que ninguém seja excluído dessa transição.”
Propósito e emoção

Ricardo Piquet, diretor-geral do IDG, trouxe ao debate a experiência de gestão de grandes equipamentos culturais, como o Museu do Amanhã. Para ele, a tecnologia só ganha sentido quando está subordinada a um propósito narrativo claro — algo que a inteligência artificial, por si só, não é capaz de produzir.
“A tecnologia deve dar suporte aos processos que criamos, mas sabendo o norte de onde queremos chegar. Se você não tiver esse propósito escrito, se não souber o que quer, você sequer consegue questionar a máquina. É a mesma coisa de uma pesquisa em IA onde o sistema manda um absurdo e você não consegue contestar por falta de criticidade. Nós usamos a tecnologia, mas nunca nos pautamos exclusivamente nela; a alma é o que é difícil buscar nessas ferramentas sozinhas.”
Piquet também alertou para o risco de tecnologias que não estabelecem conexão com a subjetividade humana, comparando diferentes experiências museológicas.
“O Museu do Amanhã traduz uma narrativa antropológica da relação do ser humano com o planeta; você sai de lá encantado. Já o Museu do Futuro em Dubai, cheio de tecnologia, não emociona ninguém, principalmente os latinos que querem algo mais quente. Se você não tiver esse tom da naturalidade do ser humano e do pensar, não chega lá. A IA não vai fazer o que a cultura faz: criar, inspirar, mexer e ser disruptiva.”
A resistência do artesão analógico

Representando a ponta criativa do debate, o músico Lenine reforçou sua posição como um “artesão” da canção, mantendo uma relação de cautela e independência diante dos algoritmos que hoje atravessam a indústria fonográfica.
“Eu continuo fazendo música como sempre fiz, de uma maneira muito artesanal. Primeiro faço a canção, depois descubro como gravá-la. Eu acredito no romance do álbum, em contar uma história através de uma sequência de canções que seja sedutora o suficiente para deixar a pessoa ouvindo por 30 ou 40 minutos. Sou um pouco anacrônico nesse sentido.”
Para o artista, a preservação do patrimônio cultural por meio da tecnologia passa pelo registro e pela documentação, mas a essência do fazer artístico permanece ligada à experiência humana.
“O fato de você documentar já é uma preservação. A questão fundamental é: quem alimenta essa inteligência? Se alguém pesquisar dentro do universo sonoro, vai encontrar o que foi registrado. Mas quem garante que a própria IA não está fazendo o seu próprio alimento com o pouco que ela já tem? Eu não sei como a máquina poderá ter a experiência emocional de um bloco de carnaval saindo na rua. Quem não passou por isso não vivencia a profundidade do que é. A tecnologia é poderosa, mas eu não abro mão da artesanalidade.”
O Diálogos IDG seguirá sendo realizado em outras cidades onde a instituição possui museus, como Rio de Janeiro e São Paulo.

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