Geofísico e divulgador científico abordou os limites da tecnologia, a corrida global por recursos estratégicos e os impactos da inteligência artificial na ciência e no mercado de trabalho em painel no NERD

Discursos catastróficos que preveem inteligências artificiais “saindo do controle” ou “extinguindo a humanidade” tornaram-se recorrentes nas manchetes globais. No entanto, sob a ótica do geofísico e divulgador científico Sérgio Sacani, esse alarmismo está longe de refletir um perigo tecnológico iminente. Na verdade, funcionaria como uma estratégia comercial e geopolítica.
O tema foi um dos assuntos abordados pelo comunicador, responsável pelo canal “Ciência Sem Fim”, durante o REC’n’Play Capítulo IA, nesta quarta-feira (30), no NERD. O painel “A História da Inteligência Artificial” percorreu as origens da tecnologia, a partir da década de 1940, até os dias atuais.
Para Sacani, a ideia de que as máquinas ganharão consciência e decidirão exterminar a espécie humana pertence estritamente à ficção. “Não tem o menor sentido e não tem como um computador se ligar sozinho. (…) ‘Ah, a humanidade não serve para nada, vou matar isso aí’. Não vai, cara. Isso aí não existe, é só filme. O computador não vai se ligar sozinho, ele não tem vontade. Quem tem vontade somos nós, seres humanos”, afirmou o palestrante durante sua apresentação.

Diante de relatos sensacionalistas recentes — como o de agentes virtuais de IA que teriam supostamente acessado e-mails corporativos e chantageado executivos com segredos pessoais para evitar o próprio desligamento —, Sacani mantém ceticismo técnico. Ele ressalta que, por trás de qualquer comportamento aparentemente “rebelde” de um algoritmo, existe uma instrução humana ou uma falha de parametrização no processo de aprendizado por reforço.
“Precisamos ter os dois pés atrás com essas histórias. Acho que em algum momento do processo teve alguma pergunta para o ser humano, e o ser humano foi lá e enfiou o dedo na parada — e aí quebra todo esse negócio de ser algo totalmente autônomo”, ponderou Sacani.
O palestrante também alerta que declarações inflamadas de executivos do setor de tecnologia precisam ser analisadas criticamente. “Filtrem uns 80% das coisas que eles falam, porque eles têm que falar essas coisas pelo marketing. Faz parte do negócio deles sair falando esses absurdos”, destacou.
Segundo ele, o pânico alimentado por cartas abertas que pedem “pausas no desenvolvimento da IA” atende a interesses comerciais estratégicos, como atrasar concorrentes e preparar o terreno para aberturas de capital (IPOs) bilionárias na bolsa de valores. “A Anthropic quer fazer o IPO dela, a OpenAI quer fazer o IPO dela. Por que pediram para dar uma segurada? Porque as empresas estão querendo fazer o IPO delas. (…) Filtrem, leiam, mas deem uma filtrada”, acrescentou.
A ‘Guerra Fria’ do Silício: terras raras e a disputa global

Enquanto parte da opinião pública debate cenários apocalípticos, a verdadeira disputa em torno da inteligência artificial ocorre no campo da geopolítica e do acesso a recursos minerais estratégicos.
A infraestrutura moderna de IA depende do processamento paralelo realizado pelas chamadas GPUs (unidades de processamento gráfico), cujos chips exigem o uso de minerais estratégicos em sua fabricação. O gargalo, segundo Sacani, está na concentração das reservas de terras raras: os Estados Unidos possuem cerca de 1 milhão de toneladas desses minerais, enquanto a China detém 44 milhões de toneladas.
“Após as sanções comerciais americanas, os chineses falaram: ‘Beleza, não vendo mais terra rara para vocês’. Acabou o ‘Stargate’. Sem terra rara, não tem ‘Stargate’. (…) Eles já perceberam que quem dominar a inteligência artificial domina a Terra”, resumiu Sacani, referindo-se aos grandes projetos americanos de supercomputação.
Ciência, “Vibe Coding” e a presença humana insubstituível

Sacani reforçou, contudo, que os avanços em inteligência artificial têm gerado transformações concretas no mercado de trabalho.
No desenvolvimento de software, a ascensão do chamado Vibe Coding — a criação de programas a partir de comandos em linguagem natural — tem alterado a rotina das empresas. Ele, no entanto, defende que o fator humano continuará indispensável para a tomada de decisões, a criatividade e a segurança dos sistemas.
Ao encerrar sua reflexão sobre o futuro das profissões, o palestrante deixou uma mensagem direta para quem teme ser substituído pela tecnologia:
“O ser humano nunca vai sair do processo, não tem como. A parte criativa vai estar com o ser humano. (…) Você não vai perder o emprego para a inteligência artificial, mas você vai perder para um ser humano que sabe usar aquilo ali”.
O REC’n’Play Capítulo IA é o segundo evento da série REC’n’Play Capítulo, criada a partir do selo REC’n’Play para aprofundar discussões sobre temas estratégicos. A programação reúne debates, painéis e oficinas práticas voltadas à aplicação da inteligência artificial em desafios reais das empresas.

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