De pesquisas acadêmicas iniciadas há sete décadas à criação de empresas de tecnologia, trajetória pernambucana foi tema de painel no REC’n’Play Capítulo IA, no Porto Digital

Filipe Calegário, Léo Zeba e Rodrigo Paiva em painel no REC’n’PLay Capítulo IA (Crédito: Lorena Valentin/Porto Digital)

Muito antes da popularização dos modelos generativos e da corrida global das Big Techs, o Recife já se consolidava como um dos polos de pesquisa em inteligência computacional da América Latina. A trajetória pernambucana na área é resultado de uma construção acadêmica e tecnológica iniciada há cerca de sete décadas, que conectou universidades, pesquisadores e o setor produtivo.

Esse percurso histórico foi resgatado no painel IA com DNA nordestino: a relevância de Pernambuco na história da inteligência artificial do Brasil, realizado nesta quarta-feira (30), no NERD, espaço do Porto Digital, durante o REC’n’Play Capítulo IA.

Participaram da discussão Felipe Calegário, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn/UFPE) e curador do comitê de IA do NERD; Léo Zeba, cofundador e CTO da Nazar e criador da comunidade de startups Manguezal; Rodrigo Paiva, head de Product Solutions na Trillia/Neurotech e fundador da startup de saúde Pixels.

Das raízes matemáticas aos cartões perfurados

Rodrigo Paiva em painel no REC’n’PLay Capítulo IA (Crédito: Lorena Valentin/Porto Digital)

As origens dessa trajetória remontam à década de 1950, quando matemáticos portugueses exilados do regime de Salazar chegaram ao Recife e contribuíram para a criação do Instituto de Matemática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A partir dessa base, a universidade desenvolveu estruturas de ensino e pesquisa que deram origem ao Departamento de Estatística e Informática, posteriormente transformado no Departamento de Informática e, mais adiante, no Centro de Informática (CIn).

Em 1967, a universidade adquiriu seu primeiro computador, utilizado prioritariamente para processar a folha de pagamento dos funcionários — história já contada pelo Jornal Digital. Entre as 22h e as 7h, quando a máquina ficava disponível, pesquisadores e estudantes aproveitavam a madrugada para desenvolver e testar programas por meio de cartões perfurados.

Na mesma época, a Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (Poli/UPE) também desenvolvia aplicações pioneiras. Durante o painel, Rodrigo Paiva destacou a contribuição do professor Meuser Valença para o uso de redes neuronais em problemas de engenharia.

“O professor Meuser Valença, da Poli, na década de 1970, já usava redes neuronais em cartões perfurados para prever a vazão a montante e a jusante das usinas da Chesf. Ele falava que conheceu 10 das 11 maiores figuras da inteligência artificial do mundo na época”, relembrou.

O pioneirismo da pesquisa pernambucana

Filipe Calegário e Léo Zeba em painel no REC’n’PLay Capítulo IA (Crédito: Lorena Valentin/Porto Digital)

Um dos marcos da consolidação da pesquisa em inteligência artificial em Pernambuco ocorreu em 1986, quando a professora Teresa Ludermir defendeu sua dissertação de mestrado sobre redes neuronais digitais. O trabalho ajudou a estabelecer uma linha de pesquisa que, décadas depois, se tornaria uma das mais produtivas do país.

Calegário destacou a importância da pesquisadora para a formação de novas gerações de cientistas e para a consolidação da inteligência computacional no estado.

“Teresa Ludermir é a nossa mãe da área de inteligência computacional. O mestrado dela foi em 1986 e já colocou uma semente nesse grupo que hoje é um dos mais produtivos em pesquisa do Brasil”, afirmou.

O professor comparou os desafios enfrentados pelos pioneiros da inteligência artificial às barreiras encontradas hoje por pesquisadores de áreas emergentes, como a computação quântica. Naquele período, a falta de capacidade computacional impunha limites significativos às possibilidades de experimentação.

“As pessoas que estavam lá atrás em inteligência artificial pensavam: ‘O que é que vai fazer com uma simulação de rede neural que não tem nem computador para rodar isso aqui?’ Era aquela cabeça de visionário de olhar para a frente”, disse.

A tradição de pesquisa se expandiu nas décadas de 1980 e 1990. No CIn/UFPE, a professora Flávia Barros liderou trabalhos em processamento de linguagem natural e sistemas especialistas. Na Universidade de Pernambuco, Fernando Buarque e Carmelo Bastos desenvolveram pesquisas nas áreas de inteligência computacional e otimização.

Da fuga de cérebros à criação de um ecossistema de inovação

Apesar da excelência acadêmica, Pernambuco enfrentava dificuldades para absorver os profissionais formados pelas universidades locais. Nos anos 1990, a falta de oportunidades no mercado de tecnologia provocava a saída de talentos para outros centros econômicos do país.

Um episódio frequentemente lembrado pelo professor Silvio Meira ilustra esse cenário: um ônibus fretado estacionado na universidade para transportar uma turma inteira de recém-formados em computação para trabalhar em São Paulo.

O problema da chamada fuga de cérebros contribuiu para mobilizar pesquisadores e empreendedores em torno da criação de alternativas locais. Nesse contexto, surgiu o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) e, posteriormente, o Porto Digital, iniciativas que fortaleceram a conexão entre universidade, empresas e mercado.

Filipe Calegário e Léo Zeba em painel no REC’n’PLay Capítulo IA (Crédito: Lorena Valentin/Porto Digital)

Dessa integração também nasceu a Neurotech, há 26 anos, fundada por egressos do CIn, entre eles Domingos Monteiro, com o objetivo de aplicar redes neurais à análise de risco de crédito. “A gente já está fazendo empresas de IA há 26 anos… A Neurotech teve a sagacidade de unir a tecnologia a um problema real de mercado, mantendo-se sempre lucrativa até a sua aquisição pela B3 por R$ 1 bilhão”, afirmou Rodrigo Paiva.

Para Léo Zeba, a consolidação desse ambiente de inovação depende justamente da capacidade de transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis, capazes de movimentar a economia e gerar novas oportunidades.”É muito importante não existir apenas a pesquisa pura. A pesquisa tem que ser aplicada, tem que gerar riqueza, gerar valor e retroalimentar o ecossistema”, destacou.

O empreendedor também chamou a atenção para as transformações provocadas pelas ferramentas de inteligência artificial na criação de novos produtos e negócios. Com a redução de custos e de barreiras técnicas, o desenvolvimento de protótipos se tornou mais acessível. “Tirar uma ideia do zero para o um hoje está muito mais fácil e rápido. Sabendo o que quer fazer, você valida um protótipo em uma semana gastando dezenas de dólares”, afirmou.

A gambiarra como ferramenta de inovação

Essa capacidade de criar soluções também se manifesta em iniciativas locais, como o Gambiarra LLM Club, grupo que explora modelos de linguagem e experimenta possibilidades de desenvolvimento com recursos limitados. Para Calegário, a chamada gambiarra, frequentemente associada à improvisação, também pode representar uma estratégia criativa diante de restrições técnicas e financeiras.

“A gente é muito bom de fazer com o que tem. Em engenharia de software a gambiarra pode parecer desleixo, mas para a criatividade e inovação sob restrição, a gambiarra é um elemento de criatividade. É fazer o modelo funcionar sob limites”, resumiu.

A aplicação prática da inteligência artificial em desafios locais é outro aspecto dessa trajetória. Rodrigo Paiva citou projetos desenvolvidos pela Pixels, startup de saúde que utiliza visão computacional para automatizar a contagem de ovos do mosquito Aedes aegypti, vetor de doenças como dengue, zika e chikungunya.

“Com pouquíssimo recurso, entregamos modelos de aprendizado profundo que resolvem problemas sociais e de saúde pública endêmicos. Isso demonstra nossa capacidade de unir criatividade, rigor científico e impacto real”, concluiu.

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