Economia portuguesa surpreende positivamente em 2026, enquanto as projeções para 2027 e 2028 sugerem crescimento mais moderado, mas com oportunidades importantes para empresas brasileiras em processo de internacionalização

Bandeira de Portugal posicionada sobre moedas de euro (Crédito: Magnific)

Por Marcela Valença e Luiz Maia *

No mundo dos negócios, acertar o timing pode ser tão importante quanto a escolha da estratégia. Antecipar (ou adiar) um investimento, ampliar operações ou lançar um produto no momento certo pode fazer enorme diferença. Mas o calendário empresarial envolve também decisões menos vistosas: quando contratar profissionais, reforçar estoques, negociar com fornecedores ou preservar recursos em caixa. É justamente aí que a leitura cuidadosa dos indicadores econômicos ganha valor. Afinal, quem percebe primeiro uma mudança de cenário pode agir antes dos concorrentes.

Nos programas de expansão internacional conduzidos pelo Cais do Porto, essa é justamente a lógica que orienta o trabalho. Mais do que apoiar empresas brasileiras que desejam explorar o mercado português e/ou europeu, o trabalho consiste em prepará-las para compreender o ambiente em que irão atuar. Conhecer o mercado, entender as diferenças culturais, políticas, jurídicas e econômicas, receber orientação de mentores e parceiros majoritariamente europeus e construir uma estratégia adequada ao contexto local reduz riscos, acelera resultados e melhora significativamente a tomada de decisão.

A expansão internacional não começa quando a empresa desembarca em Portugal. Isso começa muito antes, ainda no planejamento estratégico, ainda na conversa com as empresas que já o fizeram. Chegar ao país com conhecimento sobre o ecossistema de inovação, comportamento do consumidor, ambiente regulatório e oportunidades de negócio representa uma vantagem competitiva importante.

Essas foram mensagens centrais de uma conversa recente com empresários brasileiros que escolheram Portugal como porta de entrada para a internacionalização de seus negócios, em encontro promovido pelo Cais do Porto. A partir das projeções divulgadas pelo Banco de Portugal em outubro, foram também discutidas a conjuntura econômica portuguesa e as suas perspectivas até 2028. E as notícias são animadoras.

A primeira surpresa está no crescimento econômico. Em junho, esperava-se que o Produto Interno Bruto (PIB) português avançasse 1,8% em 2026. Agora, a projeção é de 2,3%. Uma revisão de meio ponto percentual em poucos meses não é trivial. Ela demonstra que a economia portuguesa vem apresentando um dinamismo superior ao esperado.

De onde vem essa força?

Nota de euro com a bandeira da União Europeia em destaque
Nota de euro com a bandeira da União Europeia em destaque (Crédito: Magnific)

Principalmente das famílias. A expectativa de crescimento do consumo privado saltou de 1,9% para 3,1%. Como esse componente representa aproximadamente 60% da economia portuguesa, sua aceleração tem enorme capacidade de movimentar o comércio e os serviços.

Para empresas brasileiras dos setores de turismo, hotelaria, tecnologia, economia criativa, transformação digital e soluções empresariais (justamente segmentos fortemente presentes nos programas de internacionalização do Cais do Porto) esse cenário representa um mercado consumidor mais aquecido, maior demanda por serviços e melhores perspectivas para expansão.

O investimento também surpreende. A projeção de crescimento da formação bruta de capital fixo passou de 4,5% para 5,6%. Trata-se de recursos destinados à ampliação da capacidade produtiva: equipamentos, instalações, infraestrutura e novas operações.

Há outro aspecto relevante: Portugal investe aproximadamente 21% de seu PIB, proporção superior à brasileira, atualmente inferior a 18%. Essa diferença importa porque os investimentos realizados hoje tendem a sustentar ganhos de produtividade e crescimento econômico nos próximos anos.

O comércio internacional reforça esse quadro de dinamismo. As exportações devem crescer 3,5%, enquanto as importações avançariam cerca de 6%. Importar mais não é necessariamente uma má notícia. Economias aquecidas demandam insumos, equipamentos e produtos estrangeiros. Para empresas brasileiras, isso amplia oportunidades comerciais, embora também signifique um ambiente mais competitivo.

Quanto ao mercado de trabalho, a previsão de desemprego para 2026 recuou de 5,9% para 5,6%. Isso sugere um ambiente favorável à renda e ao consumo, mas também maior dificuldade para recrutar profissionais qualificados.

Vista aérea da cidade de Aveiro, em Portugal (Crédito: Magnific)

Nesse aspecto, o Cais do Porto, inspirado na experiência do Porto Digital, entende que a formação de capital humano qualificado será um dos principais pilares para fortalecer a internacionalização e a economia do conhecimento entre Brasil e Portugal.

Estão sendo estruturadas iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências alinhadas às novas demandas do mercado, com foco em upskilling (a atualização e ampliação das competências de profissionais que desejam evoluir em suas carreiras) e reskilling (a requalificação de pessoas para atuarem em novas funções e setores impulsionados pela transformação digital, inteligência artificial e inovação).

Para empresas brasileiras, existe ainda uma vantagem estratégica importante: estruturar equipes distribuídas entre Brasil e Portugal. Manter parte da operação produtiva no Brasil, ao mesmo tempo em que se estabelece uma presença comercial ou operacional na Europa, permite aproveitar talentos, reduzir custos, manter proximidade com clientes dos dois mercados e criar operações verdadeiramente internacionais.

Da mesma forma, empresas portuguesas interessadas em ampliar suas operações ou acelerar projetos de inovação podem contar com o Cais do Porto para identificar e conectar talentos qualificados no Brasil, aproximando dois ecossistemas que possuem competências altamente complementares.

Nem tudo, entretanto, é motivo de otimismo. A inflação projetada para 2026 permanece em 3,1%, pressionada especialmente pelos preços da energia e por fatores externos. Excluindo alimentos e energia, a inflação deverá ficar em torno de 2,5%, indicando pressões menos disseminadas.

Além disso, custos operacionais elevados e o atual cenário do mercado imobiliário exigem atenção. Portugal enfrenta um déficit estimado em cerca de 300 mil habitações, fator que influencia diretamente o custo de vida, a atração de talentos e o planejamento financeiro de empresas que desejam instalar operações no país.

Para 2027, espera-se crescimento do PIB de 1,8%, ligeiramente superior à previsão anterior de 1,6%. O consumo privado deverá crescer 2,1%, enquanto a inflação tende a recuar para 2,4%, aproximando-se dos 2% em 2028.

O investimento, entretanto, deverá avançar apenas cerca de 1,1% em 2027. Isso não representa uma retração, mas uma desaceleração após o forte crescimento observado em 2026. A dependência dos fundos europeus e as incertezas geopolíticas continuam sendo fatores que exigem acompanhamento constante.

Em síntese…

Portugal oferece perspectivas melhores do que se imaginava há poucos meses, mas isso não elimina a necessidade de prudência. O momento favorece revisões (para cima) de metas comerciais, planejamento de contratações e avaliação de oportunidades, sem abandonar a disciplina financeira.

Esse pode ser um excelente momento para revisar estratégias comerciais, acelerar processos de entrada no mercado europeu, planejar contratações e identificar novas oportunidades de negócio.

Apoiar a transformação de indicadores em decisões é justamente a proposta do Observatório de Dados do Porto Digital – haja visto, inclusive o recente lançamento do Painel de Inteligência de Mercado, recurso para monitoramento de informações estratégicas sobre o setor de TIC pernambucano e nacional. E é também o espírito desta série de textos! Continue acompanhando a Ponte de Dados, aqui no Jornal Digital do Porto Digital; a informação bem interpretada pode fazer toda a diferença na próxima decisão do seu negócio.

*Marcela Valença é Country Operations Manager do Cais do Porto
*Luiz Maia é pesquisador do Porto Digital e professor da UFRPE

Esse é o quarto texto da série “Ponte de Dados”, elaborada pelos autores para o Jornal Digital, confira os demais textos:

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