O vai e vem de navios, mercadorias, pessoas — e também de ideias — construiu, ao longo de décadas e séculos, o atual Bairro do Recife e, por consequência, moldou a própria capital pernambucana. Tudo passa pelo Porto.
O crescimento populacional do século 20, aliado à globalização e à revolução informacional, alterou profundamente a dinâmica urbana em cidades ao redor do mundo. No Recife, lugar onde esta história se desenrola, não foi diferente.
O coração da cidade, a antiga zona portuária esvaziada, parecia prestar os últimos suspiros, até ser novamente ativado por um rico imaginário.
No apagar das luzes do século passado, o cientista Silvio Meira e o urbanista Cláudio Marinho propuseram a criação de um parque de empresas de tecnologia inicialmente batizado de Pernambuco Digital, pensado como um “porto da economia digital de Pernambuco”.

Do conceito ao nome Porto Digital, uma sugestão de Antonio Lavareda, então marqueteiro do governador Jarbas Vasconcelos, foi um passo.
Ancorados no imaginário já presente naquele território, Meira e Marinho foram alguns daqueles que estruturaram uma política inovadora, capaz de articular sociedade civil, governo e academia em torno do desenvolvimento econômico e social.
Resultados
Vinte e cinco anos depois, o ecossistema reúne 475 empresas, 21,5 mil profissionais e registrou R$ 6,2 bilhões de faturamento em 2024. Entre 2018 e 2023, cresceu 226% em faturamento e 127% em número de colaboradores.
“O crescimento se acelerou nos últimos anos. Só em outubro, Recife foi responsável por 23% de todos os novos empregos formais de TIC criados no Brasil, algo extraordinário para uma cidade de nosso tamanho”, diz Pierre Lucena, presidente do Núcleo de Gestão do Porto Digital.

O impacto vai além dos indicadores econômicos. Há também um movimento de resgate histórico, cultural e afetivo, sustentado pela reabilitação de prédios que compõem a identidade da cidade.
“Houve uma profunda transformação urbana: recuperação de mais de 230 mil metros quadrados de patrimônio histórico, reocupação do bairro, surgimento de novos negócios e dinamização do centro expandido do Recife. Mostramos que tecnologia pode ser motor real de desenvolvimento territorial”.
Formação
Nada disso seria possível sem o efeito que o ecossistema provocou na força acadêmica do Recife. O CESAR, criado em 1996, já era um embrião das atividades de formação no Centro do Recife, mas os últimos anos marcaram avanços significativos.
A formação de capital humano na área de tecnologia, assumida pelo Porto Digital em 2019, é hoje um pilar estratégico de longo prazo.
A cidade lidera o país com 717,8 estudantes de TI para cada 100 mil habitantes e concentra mais de 700 PhDs em Computação, além de dezenas de instituições de ensino e uma ampla rede de laboratórios e empresas que oferecem residência tecnológica, estágios e vivências práticas desde os primeiros semestres dos cursos.

“Somos resultado de visão de longo prazo, muita articulação e investimentos contínuos em gente. Enquanto muitos focam quase exclusivamente em infraestrutura, nós escolhemos priorizar as pessoas”, afirma Lucena.
Como registra o livro “Porto Digital — Inovação e Preservação no Centro Histórico do Recife”, o novo horizonte que mobiliza a gestão é alcançar entre 50 mil e 60 mil pessoas trabalhando no parque tecnológico nos próximos 30 anos.
“Se isso acontecer, não é só o Porto Digital que se transformará. Toda a cidade do Recife também vai mudar. O futuro do Recife passa pelo aumento da renda média das pessoas. E isso só é possível a partir da geração de empregos”, diz artigo assinado por Lucena, Meira e Guilherme Gatis.
Embarque Digital

No campo da formação e da empregabilidade, o programa Embarque Digital se tornou um divisor de águas.
Criado em parceria com a Prefeitura do Recife, o programa concede bolsas a jovens de baixa renda em instituições de ensino parceiras e já formou 785 estudantes em cursos superiores de tecnologia. Atualmente, 973 alunos seguem ativos — juntos, 1.758 jovens beneficiados.
A pesquisa de empregabilidade mostra que 65% dos egressos já estão inseridos no mercado de trabalho. O levantamento também revela que a maioria vem de bairros periféricos e compõe a primeira geração de suas famílias a ingressar no ensino superior.
“A nova fase tem quatro focos muito claros: manter o Embarque Digital, que virou uma política pública vencedora; ampliar formações rápidas em tecnologias específicas, como SAP; levar essa experiência do Recife para outros lugares; e, além disso, colocar inteligência artificial no centro da formação, porque vamos precisar preparar pessoas em um nível acima do que tradicionalmente as universidades formam no mundo inteiro”, explica Pierre Lucena.
Expansão
Nascido no Bairro do Recife, o ecossistema amplia sua presença no estado, no país e no exterior.
Em Pernambuco, fortalece a interiorização com o Porto Digital Caruaru (Armazém da Criatividade), no centro de Caruaru, e prevê novas unidades em cidades de diferentes regiões, como Petrolina, no Sertão do São Francisco.

Em Portugal, o Porto Digital opera o Cais do Porto — unidade em Aveiro dedicada à internacionalização de empresas para a Europa e à atração de negócios para Pernambuco, em parceria com o Governo do Estado.
Ainda no Bairro do Recife, será inaugurado no primeiro semestre de 2025 o NERD, centro voltado ao empreendedorismo, criatividade e desenvolvimento de talentos, também com investimentos do Governo de Pernambuco e da Finep.
“Vale lembrar que já estamos presentes em Goiânia e Rio Verde, em parceria com o Governo de Goiás, e que conduzimos projetos educacionais relevantes na UNIT, em Aracaju, e na Universidade Católica de Brasília”, diz Lucena.
“Outro eixo essencial dessa nova fase é a mobilização de pessoas e comunidades, reunindo empreendedores, profissionais, criativos, universidades e stakeholders, para gerar novas redes e transformar estruturas sociais por meio da inovação”, completa o presidente.
Aquela movimentação iniciada no Bairro do Recife hoje transborda para outras regiões, atravessa fronteiras e prepara novas gerações para um mercado em transformação. O próximo ciclo se desenha com a mesma convicção de que o desenvolvimento do Recife passa, sobretudo, pelo imaginário e pela criação de oportunidades fora do eixo que, historicamente, concentra as atividades de tecnologia no Brasil.

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