Caso do antigo “Mouling Rouge”, na Avenida Marquês de Olinda, ilustra um movimento de inserção da arquitetura moderna no Bairro do Recife, intensificado a partir da década de 1970

Quem chega ao Bairro do Recife pela Ponte Maurício de Nassau, principal acesso para pedestres e automóveis, se depara logo com um contraste que sintetiza a diversidade arquitetônica da ilha. À esquerda, o edifício Chantecler exibe traços ecléticos de inspiração afrancesada; à direita, uma construção de fachada envidraçada revela a presença marcante da arquitetura moderna.
Registros antigos, como uma fotografia do acervo do Museu da Cidade do Recife feita pelo fotógrafo Alexandre Berzin, mostram como esse segundo prédio era no passado. Assim como o Chantecler, ele também possuía características ecléticas, resultado das reformas urbanas da década de 1910. Durante muito tempo, ficou conhecido como “Moulin Rouge”, em referência ao célebre cabaré parisiense.

Inaugurados na segunda metade dos anos 1920 para uso misto — residencial e comercial —, os dois edifícios passaram a abrigar atividades que contribuíram para a fama do bairro como “zona de meretrício”. Frequentemente apareciam nas páginas dos jornais em registros policiais, com relatos de brigas envolvendo marinheiros, prostitutas e ladrões.
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Em 1971, no entanto, os prédios tiveram destinos distintos. O antigo Moulin Rouge foi transformado em sede do Banco Internacional e passou por uma reforma que adotou o sistema de “fachada-cortina” — estrutura geralmente composta por vidro e alumínio, com estética moderna e transparente, preservada até hoje
Esse caso ilustra um movimento mais amplo de inserção da arquitetura moderna no Bairro do Recife, intensificado sobretudo a partir da década de 1970. À época, o estilo eclético ainda não era valorizado pelos órgãos de preservação, que o consideravam uma fase de transição da arquitetura brasileira, sem grande relevância histórico-cultural.
Cilindro de vidro

Outro exemplo emblemático desse processo, mais lembrado do que o antigo Moulin Rouge, é o edifício espelhado localizado no Marco Zero. No início do século XX, o terreno abrigava um prédio eclético onde funcionou uma agência do Banco do Brasil.
Em 1972, o imóvel foi adquirido em leilão pelo Grupo João Santos, ligado ao Cimento Nassau, que inaugurou ali sua nova sede em outubro de 1977. Até hoje, o grupo concentra no edifício suas principais atividades.
Edifício Vasco Rodrigues

Inaugurado em 1970 como sede do Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe), o Edifício Vasco Rodrigues, atualmente ocupado pelo Núcleo de Gestão do Porto Digital, marcou não apenas a consolidação da arquitetura moderna, mas também um processo de verticalização até então inédito no bairro.
Com 20 andares, o projeto é assinado pelo arquiteto Acácio Gil Borsoi, nome central na construção do pensamento moderno na arquitetura e no urbanismo do Nordeste.
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Atualmente, o prédio é reconhecido pela Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural do Recife como um dos imóveis de maior valor histórico e arquitetônico da região.
Após a doação do Governo do Estado ao Núcleo de Gestão do Porto Digital, nos anos 2000, o edifício passou por um processo contínuo de recuperação. Foram implantadas novas redes de telecomunicações, modernizados os elevadores e aprimorados os sistemas hidráulico e de climatização.
No segundo semestre de 2024, o prédio teve aprovado um projeto de requalificação por meio da Lei Rouanet, permitindo a captação de recursos privados para sua revitalização.
Banco do Brasil

Antes mesmo desses casos, ainda em 1960, outro marco da arquitetura moderna foi erguido no bairro: a nova sede do Banco do Brasil, transferida do Marco Zero para a Avenida Rio Branco. O edifício foi projetado pelo arquiteto Rubem de Almeida Serra.
No projeto original, Serra convidou o artista plástico e muralista Paulo Werneck para desenvolver o revestimento externo e um painel de azulejos que ocupava todo o volume de circulação vertical do edifício.
Segundo o livro Guia de Arquitetura Moderna do Recife, da pesquisadora Maria Laura Pires, o prédio sofreu alterações que descaracterizaram sua concepção original. Elementos como os quebra-sóis, que marcavam a composição da fachada, foram removidos em reformas realizadas no século XXI, e os revestimentos também foram substituídos ao longo do tempo.
Diversidade tombada

Embora muitas das intervenções ao longo do tempo ainda sejam alvo de críticas, a diversidade arquitetônica do Bairro do Recife acabou reconhecida no tombamento realizado pelo IPHAN, em 1998 — um gesto que também reafirma o valor da arquitetura eclética.
O conjunto preservado reúne ainda exemplares de diferentes períodos históricos, como a Igreja Madre de Deus e o Forte do Brum, remanescentes da época colonial, além de construções do século XIX, a exemplo da Estação Ferroviária do Brum, de inspiração neoclássica.

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